Imprimir

Notícias / Eleitoral

Cassada por compra de votos, filha de Éder pede desfiliação do União alegando perseguição de correligionários

Da Redação - Pedro Coutinho

A vereadora Monnize da Costa Dias Zangeroli, de Diamantino, que teve os direitos políticos anulados por suposta compra de votos e abuso de poder, está pedindo a desfiliação do União Brasil ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT), alegando perseguição política, discriminação pessoal e o apoio de correligionários pela sua cassação. Monnize, que é filha do ex-secretário condenado Éder de Moraes, o qual inclusive consta como réu no processo que cassou o mandato dela, pediu a saída da sigla já de olho nas eleições de 2026, nas quais ela tem a pretensão de se candidatar para deputada federal.

Leia mais: Justiça mantém sentença que cassou filha de Eder e condenou ex-secretário de Fazenda
 
Monnize sustenta a existência de perseguição e de discriminação pessoal em duas frentes, sendo a primeira através de condutas atribuídas a correligionários, notadamente os vereadores Diocelio Pruciano e Michelle Carrasco, os quais teriam se manifestado favoravelmente à cassação de seu mandato durante sessão plenária realizada em no dia 2 de fevereiro.

O pedido de cassação que tramita na Câmara de Diamantino se relaciona ao processo criminal eleitoral em curso, em que Monnize foi cassada em primeira instância, por captação ilícita de sufrágio e abuso de poder econômico. A sentença está sendo combatida no TRE e, enquanto o mérito não é resolvido, ela segue no cargo.

O segundo apontamento de Monnize pela desvinculação versa sobre a ausência de seu nome no quadro de membros do Partido União Brasil, embora ainda exerça mandato eletivo como representante da sigla em Diamantino, fato este que, na sua leitura, reforça a alegada perseguição promovida pelo partido. O objetivo dela é se desvincular antes do dia 4 de abril, data limite as filiações.

Examinando o pedido, no entanto, o juiz Luis Otávio Pereira Marques, membro do TRE, indeferiu a liminar argumentando que conflitos entre colegas de legenda e divergências internas particulares não constituem atos institucionais de discriminação, tampouco justificariam justa causa para desfiliação urgente.

A decisão ressalta que o exercício do cargo eletivo não garante participação automática na direção partidária nem impõe solidariedade obrigatória entre os filiados. Por fim, o juiz negou o pedido de segredo de justiça, determinando a publicidade do processo por não vislumbrar riscos aos direitos fundamentais da parlamentar.

Compra de votos e abuso de poder

Monnize teve o mandato cassado em julho de 2025 por ordem do juiz Raul Lara Leite, que constatou que ela incorreu em compra de votos e abuso de poder econômico nas eleições de 2024. Na sentença, Éder também foi condenado.

A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) em Diamantino foi ajuizada por Edmilson Freitas Almeida contra Monnize e Éder, acusado de coordenar e operar financeiramente a campanha dela.

A denúncia apontou que no dia anterior à eleição, em 5 de outubro de 2024, Éder foi flagrado num quarto de hotel com R$ 6 mil em espécie. Com ele, a polícia apreendeu ainda um celular e um caderno com anotações detalhadas sobre a contabilidade paralela de controle de compra de votos, pagamento de militantes e orçamento muito superior ao teto legal.

O ex-secretário e sua filha negaram veementemente as acusações e argumentaram que o dinheiro vivo era para pagar a hospedagem do Hotel Villa dos Parecis e as anotações eram apenas planejamentos de campanha.

Porém, o juiz considerou que as provas colhidas na investigação demonstraram que pai e filha teriam cometido os crimes eleitorais em questão. Todas as preliminares foram rejeitadas e, no mérito, houve procedência do pedido contido na ação.

O juiz examinou caso a caso. Sobre o “caixa 2”, anotou que a contabilidade paralela apreendida no caderno de Éder, contendo detalhes de nomes, valores e assinaturas, desmentiram sua versão de que seriam projeções.

O caixa paralelo também foi comprovado por despesas simuladas, como o registro de R$ 1.080,00 para "M.L." no caderno, enquanto a prestação de contas oficial declarou apenas R$ 480,00, e a própria testemunha negou ter trabalhado ou recebido qualquer valor. Além disso, houve gastos omitidos, como a ausência de registro de despesas com camisetas de campanha ("Desenvolve Diamantino") encontradas no veículo de Eder e amplamente utilizadas, cuja origem ele não soube justificar documentalmente.

Sobre compra de votos, Raul Lara Leite cruzou os dados das anotações com depoimentos de testemunhas que confirmaram a captação ilícita de sufrágio: dentre os escritos, havia: “20 votos: R$ 5 mil”. O magistrado também rechaçou o depoimento prestado por um policial em favor de Éder, o qual alegou que sua rubrica no “caderninho” seria apenas uma brincadeira. Justificativa frágil, anotou o juiz.

Em relação ao abuso de poder, o magistrado pontuou pela quantidade de dinheiro envolvida, com gastos entre R$ 250 e R$ 300 mil. “A gravidade qualitativa reside na própria natureza das condutas: compra de votos, simulação de despesas e uso de 'caixa dois' são atos que corrompem a vontade do eleitor e ferem de morte a isonomia do pleito”, completou o magistrado.

A responsabilidade de Éder e da filha, então, foi considerada “inequívoca e multifacetada”, já que confessou ter atuado como o operador e coordenador da campanha, detendo o controle da administração financeira para a filha.

Monnize foi eleita pelo quociente partidário com 377 votos e seguirá no cargo até que a sentença, que cabe recurso, transite em julgado. Seu pai é um velho conhecido da política e Justiça mato-grossenses, ostentando no currículo, até 2020, penas em mais de 180 anos pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, denunciados na Operação Ararath.
 
Imprimir