Os produtores rurais Julinere Goulart Bentos e Cesar Sechi, acusados de encomendarem o assassinato do advogado Renato Nery, negaram qualquer envolvimento com o crime. Inicialmente, Julinere havia confessado informalmente a execução em depoimento, mas depois recuou. Suspeitos de intermediarem o crime, os militares Jackson Barbosa e Ícaro Ferreira também foram ouvidos na audiência que encerrou nesta quarta-feira (4), sendo que o primeiro ficou em silêncio e o segundo, acusado de ter fornecido a arma usada na execução, negou participação.
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Na primeira sessão foram ouvidas as testemunhas de Ícaro e Jackson. No dia seguinte, mesmo horário, as testemunhas do casal e, por fim, nesta quarta e quinta, o casal Julinere e Cesar e os militares serão interrogados.
Em manifestação assinada no domingo, a defesa da dupla da Rotam apontou a irresignação com a realização da instrução sem que ordem do Tribunal de Justiça, que ordenou o acesso completo e irrestrito às defesas sobre todos os documentos e dados do processo, fosse integralmente cumprida.
Na sessão, Julinere e Cesar negaram qualquer envolvimento com o crime, inclusive afirmara que não estão mais juntos desde 2019, e que ele estava em Juara quando a trama foi orquestrada.
O advogado Renato Nery foi assassinado a tiros no dia 5 de julho. A motivação do crime está atrelada a uma disputa de 12 mil hectares de terras, avaliados em mais de R$ 40 milhões. Cesar Sechi e Julinere Goulart, acusados de serem os mandates, seguem presos, tal qual os militares.
Segundo o Ministério Público, eles compõem o “núcleo de comando”, que agiu contrariado pela vitória de Nery na briga fundiária. Julinere confessou informalmente que tramou a execução depois de não aguentar mais seu marido reclamar que Nery havia roubado suas terras, mas agora recuou. Jackson, por sua vez, mora no mesmo condomínio que o casal, em Primavera do Leste. Foi então que ele se inseriu na trama. Ele ficou em silêncio na audiência.
Cesar também afirmou que não teria interesse direto na disputa envolvendo a vítima. Foi destacado por um advogado que o nome dele teria sido pouco mencionado ao longo dos três dias de audiência. “Depuseram, trouxeram elementos demonstrando que não possuem relação nenhuma com o caso. Instrução inteira sequer citaram nome do César. É absurda essa acusação, ainda mais contra ele. Muito frágil os elementos contra ele”, disse uma fonte ao Olhar Jurídico.
As investigações concluíram que Jackson e Ícaro intermediaram o assassinato, sendo o primeiro como o principal intermediário entre o casal mandante, e o núcleo executor composto pelo também agente militar Heron Teixeira e o seu caseiro, Alex Cardoso. Foi Jackson que ofereceu o “serviço” a Heron mediante R$ 200 mil.
Além de oferecer a grana pela cabeça de Nery, a mando do casal, Jackson também repassou informações cruciais aos executores: como o endereço do escritório, horários de deslocamentos e detalhes da empreitada.
Ícaro, também da Rotam, forneceu a arma usada na execução: uma Glock adaptada, modelo G17, calibre 9mm, automatizada para disparos em rajada. Ele a entregou a Heron no próprio batalhão, em Cuiabá. Importante ressaltar que a arma em questão e as munições eram da PM, o que, para os promotores, evidenciou uma estrutura criminosa dentro da corporação. Ícaro negou que tenha emprestado o material bélico para o crime.
Além disso, o MP aponta que Ícaro agiu como intermediador financeiro: Jackson lhe entregou dois envelopes com R$ 40 e R$ 50 mil, vivos, e ele repassou o montante a Heron em notas de duzentos e cem reais no bairro Chapéu do Sol, Várzea Grande, depois da execução. Quem puxou o gatilho na manhã do dia 5 de julho foi o caseiro de Heron, Alex Roberto de Queiroz Silva (já denunciado), que se posicionou em frente ao escritório de Nery e efetuou sete disparos em modo rajada (automático) direcionados à sua cabeça, surpreendendo-o e dificultando sua defesa.