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Empresas em Cuiabá e VG, carrões, artigos de luxo e laranjas: como o grupo de agiotagem liderado por ex-PM lavou milhões

Da Redação - Pedro Coutinho

Ex-policiais militares, agentes da ativa, empresários e membros da mesma família: decisão que autorizou a Operação ‘Fides Fracta’, deflagrada nesta quarta-feira (26), revelou os detalhes da organização criminosa que movimentou milhões por meio de agiotagem e empresas fantasmas em Cuiabá e Várzea Grande. Na ordem, o juiz Rogério Moacir Tortato, analisou a participação de cada alvo da ofensiva.

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Acusado de liderar o grupo, o ex-policial militar Tiago Alves da Silva centralizava as operações ilícitas e comandava o núcleo financeiro. Para isso, constituiu diversas empresas usando familiares como laranjas. Seu irmão, Ecclesiastes Alves da Silva, atuava como administrador formal de empresas como a TS Incorporação Ltda. e a TS Soluções Cred, que movimentaram juntas mais de R$ 15 milhões sem qualquer lastro operacional. A tia, Maria Aparecida de Freitas, também era usada para compor o quadro societário.

A prática da agiotagem e da extorsão era realizada por um grupo dedicado de executores. O policial militar Eloi Adriano Alfonso Morais, conforme revelado na decisão, negociava empréstimos com juros que variavam entre 15% e 20%, utilizando sua condição funcional e porte de arma para coagir devedores. Oberdann Vinicius de Morais, também PM, era um membro nuclear, atuando ativamente nas cobranças e no deslocamento de outros "cobradores". Ele usava alcunhas como "Steve Escobar" para ameaçar as vítimas.

Para executar as cobranças, os agiotas agiam com violência, sendo este o ponto comum entre todas as acusações. Dilemir Lima Santos e Abrantes Campos Martins Júnior são apontados como os principais executores de atos violentos. Dilemir é citado como um dos "capangas" de Tiago, participando de episódios de cárcere privado. Já Abrantes Júnior é descrito em boletins de ocorrência por sua conduta agressiva em cobranças presenciais, inclusive contra um policial federal.
 
A estrutura montada para lavar os milhões obtidos com os atos de violência também foi examinada pelo magistrado. Para ocultar a origem ilícita do dinheiro, o grupo contava com uma sofisticada com o contador Victor Hugo Lucas Silva, identificado como peça fundamental, sendo o responsável pela abertura e escrituração de pelo menos oito empresas de fachada do grupo, todas registradas em endereços residenciais ou fictícios.
 
A movimentação financeira era pulverizada por vários operadores, possivelmente laranjas. Jairo Rodrigo de Pinho, primo de Tiago, atuava como operador financeiro, utilizando sua empresa, a Celeiro Beer, para circular e fragmentar quantias. Posteriormente ele alterou o nome da companhia para Boteco 40 Graus Ltda. Ele foi responsável por repassar quase R$ 404 mil para Tiago em 97 transações distintas. Nilson Moraes de Aguiar, cabo da PM, movimentou sozinho mais de R$ 2,3 milhões em suas contas, usando duas empresas em nome de sua mãe para isso.
 
O grupo se utilizava de interpostos para ocultar bens. Wilson Alves de Souza possuía procuração com amplos poderes outorgada por Tiago, permitindo que negociasse veículos e movimentasse valores em seu nome. Vanessa da Silva Souza, ex-companheira de Tiago, aparecia como titular de 22 veículos, realizando negociações circulares com o líder para lavar o capital. Mário Sérgio de Oliveira, soldado PM, atuava na blindagem patrimonial, controlando a empresa Urban Store e registrando bens de luxo incompatíveis com sua renda. Sua irmã, Rafaela Cristina de Oliveira Santos, era sócia-administradora desta mesma empresa, servindo como interposta para o registro de bens.

Outros policiais militares também integravam o esquema. Pedro Antônio Norato Victor criou a VSF Empresa Simples de Crédito, que movimentou R$ 1,7 milhão, usando o mesmo contador das empresas de Tiago. Jonny Zielasko Júnior mantinha intensas transações financeiras com outros PMs investigados, como Mário Sérgio e Nilson Moraes.

Mesmo durante as investigações, o grupo continuou se expandindo. Wictor Hugo Gomes Bonomo foi alçado a sócio-interposto das empresas TS Incorporação e da mais recente, TW Incorporação Ltda., demonstrando a continuidade do método de ocultação. Matheus de Lara Arguelho, sócio de Oberdann na empresa de fachada "Rota Empresa de Crédito", criou novas empresas no mesmo ramo após o encerramento da primeira.
 
As investigações começaram a partir de uma comunicação da Corregedoria-Geral da PMMT sobre a evolução patrimonial incompatível de Tiago Alves da Silva. As diligências revelaram que outros policiais militares também apresentavam movimentações financeiras atípicas, levando ao desmonte de uma organização criminosa estruturada em núcleos especializados de crime e lavagem de dinheiro.

O Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), força-tarefa permanente constituída pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), Polícia Judiciária Civil, Polícia Militar, Polícia Penal e Sistema Socioeducativo, deflagrou, na manhã desta quarta-feira (26), a Operação “Fides Fracta”. São cumpridos 28 mandados de busca e apreensão domiciliar e 22 mandados de sequestro de bens.

A ação tem como objetivo colher provas, impedir a dissipação de bens adquiridos com recursos ilícitos e garantir a efetividade da persecução penal. Os crimes investigados incluem organização criminosa (Lei 12.850/13), lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98), extorsão, usura e outros delitos relacionados.

O grupo atuava na região metropolitana de Cuiabá, Várzea Grande e também em Goiânia (GO). Segundo as investigações, policiais militares — alguns ainda na ativa e outros já fora das fileiras — eram responsáveis por práticas de agiotagem, extorsão, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. De acordo com o delegado Hércules Batista, foram identificadas movimentações financeiras milionárias, sustentadas por cobranças abusivas.

“Alguns empréstimos chegavam a 50% de juros ao mês. Já entre colegas de farda, o percentual aplicado era de 15%. Ficou evidente a busca por lucro a qualquer custo, com uso de todos os meios para alcançar os objetivos da organização”, explicou o delegado.

O líder do grupo, Tiago Alves da Silva, segundo o Gaeco, seria um ex-policial militar que deixou a corporação, mas manteve forte influência sobre integrantes da ativa. Apesar de não possuir profissão formal atualmente, ostentava uma vida de luxo, com viagens internacionais, veículos de alto padrão e moradia em condomínios de alto padrão.

Na operação, foram apreendidos dinheiro em espécie, armas de fogo, carros de luxo, celulares, notebooks e até um avião de pequeno porte.

Veja todos os nomes: 

Abrantes Campos Martins;

Adriano Pereira Costa;

Dilemir Lima Santos; 

Eclesiaste Alves Silva; 

Elieser Vieira da Silva;

Eloi Adriano Alfonso Moraes — policial militar (cabo);

Jairo Rodrigo de Pinho; 

Jaison Lemes de Oliveira; 

Jean Cabral de Barros; 

Jonny Zielasko Junior — policial militar (cabo PM);

Mario Sergio de Oliveira — policial militar (soldado);

Matheus de Lara Arguelho;

Nilson Moraes de Aguiar — policial militar (cabo);

Oberdann Vinícius de Morais — policial militar;

Pedro Antonio Norato Victor — policial militar;

Rafaela Cristina de Oliveira Santos;

Thiago Ferreira Borges; 

Tiago Alves da Silva - suposto lider do esquema 

Vanessa da Silva Souza — ex-companheira de Tiago Alves da Silva;

Victor Hugo Lucas Silva — contador;

Wictor Hugo Gomes Bonomo — sócio de Tiago Alves da Silva;

Wilson Alves de Souza.
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