O promotor de Justiça Luiz Fernando Rossi Pipino pediu, nesta quinta-feira (7), que o Tribunal do Júri condene Gilberto Rodrigues dos Anjos pelos crimes de estupro, estupro de vulnerável e feminicídio contra Cleci Calvi Cardoso, 46 anos, e suas filhas Miliane, 19, Manuela, 13, e Melissa, 10. O requerimento foi feito durante sessão de julgamento em Sorriso (MT).
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Os crimes ocorreram na madrugada entre os dias 24 e 25 de novembro de 2023. Conforme já confessado pelo réu, ele invadiu a residência das vítimas e cometeu os atos criminosos. Os corpos foram encontrados apenas na manhã do dia 27, com sinais de violência sexual — com exceção da menina de 10 anos — e diversos ferimentos.
Na época, Gilberto trabalhava e residia em uma obra vizinha à casa das vítimas. O pai e esposo das mulheres estava em viagem a trabalho. O réu foi preso logo após a descoberta dos corpos e confessou os crimes em depoimento à Polícia Civil.
Durante a arguição, o promotor dirigiu-se à família das vítimas, especialmente ao viúvo e pai das jovens, e à mãe e avó das vítimas, a quem chamou de sobreviventes, prestando solidariedade e reafirmando o compromisso com a justiça. “O grito de justiça há de prevalecer”, declarou.
Ao se dirigir aos jurados, o representante do Ministério Público destacou que o julgamento não era apenas de mais um crime, mas um embate entre os valores da civilização e a barbárie. “Este júri trata da humanidade frente à selvageria”, afirmou, referindo-se ao réu como “um ser demoníaco”.
O promotor pediu que os jurados votem “com a consciência e o coração”, enfatizando que o papel do Tribunal do Júri é defender a vida. “Hoje é uma guerra do bem contra o mal”, afirmou, ao iniciar sua sustentação oral. No telão, exibiu uma imagem do réu no momento da prisão, acompanhado do título “Monstro de Sorriso”.
Pipino pediu desculpas à família antes de apresentar imagens mais sensíveis e justificou a necessidade de mostrar a dor enfrentada pelos familiares. Em seguida, argumentou que houve premeditação. Segundo ele, Gilberto observava a rotina da família e planejou o crime com frieza. “Monitorou horários, estudou o imóvel, identificou a entrada, desviou dos cães e executou o plano com requintes de crueldade”, disse, com o apoio de uma apresentação em PowerPoint.
Para ilustrar a dinâmica do crime, o promotor exibiu a planta baixa da casa. O réu teria invadido o imóvel pela janela do lavabo, após andar sobre o muro. As primeiras marcas de sua presença foram identificadas na tampa do vaso sanitário. Na cozinha, a mãe das meninas, Cleci, se deparou com o agressor e tentou reagir, abrindo a porta para que os cães entrassem ou algum vizinho ouvisse os gritos de socorro.
As filhas mais velhas entraram em cena para ajudar a mãe, mas não conseguiram conter o agressor. Tentaram fugir pela janela do quarto, mas foram alcançadas e assassinadas. A acusação sustenta que o réu agiu como “todo feminicida age: movido por ódio e desprezo às mulheres”.
Após os crimes, Gilberto teria lavado o chinelo na cozinha e deixado o local pelo mesmo caminho por onde entrou. Imagens da perícia mostram pegadas do réu no muro, no batente da janela e em outros pontos da casa.
O promotor também mostrou fotos da casa das vítimas e da obra onde o acusado trabalhava. “Ele observava tudo. Tinha acesso visual à rotina da família e usou o andaime da obra para invadir o imóvel”, explicou.
Em uma das imagens, é possível ver que Cleci tentou fechar a porta da cozinha para proteger as filhas. A sequência dos fatos foi confirmada por testemunhas e pelo interrogatório do réu. Entre as provas, estão material genético de Gilberto, seu chinelo, roupas pessoais e uma calcinha limpa encontrada entre seus pertences, considerada pelo promotor como um “troféu” do criminoso.
Um vídeo exibido no júri mostra policiais civis encontrando a sacola com pertences do réu escondida em uma caixa de papelão no contêiner onde ele dormia. Ao comentar o interrogatório, o promotor criticou a alegação do réu de que não pretendia fazer mal às vítimas. “Teve a pachorra de dizer que não queria fazer mal às meninas”, disse, lendo trechos do inquérito.
A acusação classificou os crimes como uma “brutalidade fora do comum” e afirmou que “nenhuma pena será suficiente para alguém com tamanha maldade”. Em seguida, Pipino exibiu imagens do local dos assassinatos e reforçou o impacto das perdas. “Segundo o IBGE, a expectativa de vida das mulheres brasileiras é de quase 79 anos. Ele subtraiu 229 anos de vida. Não permitiu que essas meninas chegassem à adolescência ou à vida adulta. Não permitiu que o pai pudesse comemorar o Dia dos Pais. Nenhuma pena será justa.”
Diante das imagens mais fortes, duas irmãs de Cleci deixaram a sala. O promotor concluiu pedindo a condenação do réu por todos os crimes imputados e afirmou que a pena mínima que a sociedade espera é que Gilberto permaneça preso pelos próximos 38 anos, já descontados os dois anos de reclusão desde o crime.