Imprimir

Notícias / Criminal

'Aquela cena foi a mais aterrorizante, repugnante e maldosa que já presenciei', diz policial que testemunhou chacina

Da Redação - Arthur Santos da Silva

Membros da Polícia Civil prestaram depoimento no Tribunal do Júri durante o julgamento de Gilberto Rodrigues dos Anjos, acusado pelos crimes de estupro, estupro de vulnerável e feminicídio contra Cleci Calvi Cardoso, 46 anos, Miliane Calvi Cardoso, 19 anos, Manuela Calvi Cardoso, 13 anos, e Melissa Calvi Cardoso, 10 anos. O caso ficou conhecido como a "Chacina de Sorriso".

Leia também 
Delegado detalha a júri atrocidades cometidas por réu da Chacina de Sorriso: 'a cidade nunca mais será a mesma'


Os crimes ocorreram na madrugada entre os dias 24 e 25 de novembro de 2023. Conforme já confessado pelo réu, ele invadiu a residência das vítimas e cometeu os atos criminosos. Os corpos foram encontrados somente na manhã de 27 de novembro, com diversos ferimentos e sinais de violência sexual — com exceção da menina de 10 anos.

À época, Gilberto trabalhava e morava em uma obra ao lado da casa das vítimas. O pai e esposo das mulheres estava em viagem a trabalho. O réu foi preso logo após a descoberta dos corpos e confessou os crimes em depoimento à Polícia Civil de Sorriso.

A quarta testemunha a ser ouvida foi o investigador Willian Krisman Silva Souza. Em resposta ao Ministério Público, ele descreveu o deslocamento e a chegada ao local do crime, onde já havia aglomeração de pessoas, jornalistas e bombeiros. Segundo ele, a porta da casa era de vidro e, antes mesmo de entrar, já era possível ver corpos no chão. Com a chegada dos peritos, ele e os demais investigadores acompanharam toda a perícia. “Aquela cena foi a mais aterrorizante, repugnante e maldosa que já presenciei”, afirmou.

De acordo com o policial, a primeira informação fornecida pelo perito foi de que havia várias marcas de chinelo pela casa. A segunda foi de que o autor do crime teria entrado pelo lavabo. Nesse momento, os investigadores perceberam que ao lado havia uma construção e se dirigiram até lá, onde pediram ao encarregado para conversar com os trabalhadores. Nenhum deles relatou algo relevante, mas o encarregado mencionou que um dos pedreiros dormia na obra, embora não estivesse presente naquele momento.

Ao localizar Gilberto, os policiais notaram que ele estava visivelmente nervoso. Também perceberam que, do local onde ele dormia, era possível visualizar a casa das vítimas — o que aumentou a suspeita. Eles solicitaram o chinelo dele e, poucos minutos depois, receberam da delegacia a informação sobre sua ficha criminal.

Segundo Willian, a perícia confirmou que as pegadas encontradas na casa correspondiam ao chinelo de Gilberto, que então foi conduzido à delegacia.

Na delegacia, Gilberto relatou que observava a rotina das vítimas. Contou que entrou na residência pela janela do lavabo e que, ao se deparar com Cleci, iniciou uma luta corporal. Inicialmente, disse que invadira o local para furtar, mas depois confessou que utilizou uma faca para agredi-la.

O investigador destaca que Gilberto mentiu ao afirmar que não teve conjunção carnal com as três vítimas mais velhas, pois a perícia identificou material genético compatível com ele. Entre os pertences do acusado, os policiais encontraram uma sacola escondida no contêiner onde ele dormia, contendo as roupas usadas no crime e uma calcinha limpa, levada da casa das vítimas. Para Willian, o crime foi premeditado.

Ele ainda relembra que, ao ouvir do delegado que era o principal suspeito, Gilberto reagiu: “Estatelou os olhos e pediu: me tira daqui”.

A quinta testemunha foi o investigador Márcio Coutinho Scardua, também envolvido nas diligências. Muito emocionado, ele relatou a cena como “terrível”. Segundo ele, "o local do crime fala" e, ao visualizar o cenário, ele e Willian saíram em busca de vestígios deixados pelo autor. Na obra vizinha, conversaram com os trabalhadores e foram informados de que Gilberto estava no andar superior, onde dormia. Chamado, o acusado desceu vestindo camiseta amarela e botina.

Márcio disse que, ao ver Gilberto, logo suspeitou de que ele poderia ser uma testemunha relevante. No entanto, o pedreiro negou ter ouvido ou visto algo. Levado até o local onde dormia, os policiais observaram que era possível ter uma visão da casa das vítimas. Diante das negativas de Gilberto, o investigador começou a suspeitar que ele escondia algo.

Questionado sobre seus documentos, Gilberto entregou uma cópia da identidade retirada de uma mochila. A imagem foi enviada à delegacia e, enquanto aguardavam o retorno, o delegado Bruno chegou ao local. Márcio comunicou a ele que o comportamento de Gilberto era suspeito. Ao ser questionado sobre o chinelo, Gilberto afirmou que não tinha, mas o item foi encontrado no contêiner. O delegado o levou para a perícia.

Pouco depois, o escrivão ligou confirmando que havia um mandado de prisão em aberto contra Gilberto por estupro. Nesse momento, a confirmação do laudo das pegadas também chegou. Gilberto então pediu para ser levado à delegacia, onde prometeu contar tudo.

No trajeto até a delegacia, Gilberto começou a confessar os crimes, alegando que estava sob efeito de drogas. Já na delegacia, demonstrou nervosismo e resistência. Márcio pediu para que ficassem na sala apenas ele, Willian, o escrivão e o réu. Perguntou a Gilberto se estava arrependido, mas o acusado desconversou. Segundo o policial, Gilberto já observava a rotina das vítimas.

Ao ser novamente questionado sobre arrependimento, Gilberto respondeu que não. Márcio descreveu a brutalidade dos assassinatos e, com quase 24 anos de carreira — dez deles na Delegacia de Homicídios —, afirmou jamais ter presenciado um crime semelhante.
Imprimir