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Venda de Hilux e tentativa de esconder celular: como os PMs envolvidos no assassinato de Nery tentaram ‘driblar’ investigações

Da Redação - Pedro Coutinho

Para obstruir o trabalho investigativo sobre o assassinato do advogado Renato Nery, em julho de 2024 em Cuiabá, os policiais militares Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira, ambos da Rotam, adiantaram a venda de uma caminhonete Hilux para repassar os valores aos mandantes, os produtores rurais Julinere Goulart Bentos e Cesar Sechi, bem como tentaram esconder um aparelho celular das autoridades. As informações foram reveladas na denúncia oferecida pelo Ministério Público contra a dupla, acusada de atuar nos núcleos de intermediação e obstrução do homicídio.

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Acusação foi feita no último dia 25 de junho, assinada pelo grupo de quatro promotores de Justiça que atuam no caso: Élide Manzini de Campos, Rinaldo Segundo, Rodrigo Domingues e Samuel Frungilo. 

A dupla, que teve a prisão preventiva decretada, foi acusada pelos crimes de homicídio qualificado por promessa de recompensa, meio que resultou perigo comum, e recurso que dificultou a defesa da vítima, com aumento de pena pela idade da vítima (72 anos), fraude processual qualificada, abuso de autoridade, e integrar organização criminosa.
O advogado Renato Nery foi assassinado a tiros no dia 5 de julho. A motivação do crime está atrelada a uma disputa de 12 mil hectares de terras, avaliados em mais de R$ 40 milhões. O casal mandante do crime, Cesar Sechi e Julinere Goulart, está preso. Eles compõem o “núcleo de comando”, que agiu contrariado pela vitória de Nery na briga fundiária.
Julinere confessou que tramou a execução depois de não aguentar mais seu marido reclamar que Nery havia roubado suas terras. Jackson, por sua vez, mora no mesmo condomínio que o casal, em Primavera do Leste. Foi então que ele se inseriu na trama.
"Ele não ia viver para gastar o que tomou de mim", teria sido a frase repetida pela empresária Julinere, esposa de Cesar, acusada de ser a mentora intelectual do assassinato. Ela, que já havia confessado a autoria em conversa informal junto ao delegado do caso, agora foi denunciada pelo Ministério Público como mandante do homicídio ao lado do marido, a partir novos elementos de prova como um envelope contendo o pagamento para a execução. Eles seguem presos enquanto aguardam julgamento.

As investigações concluíram que Jackson e Ícaro intermediaram o assassinato, sendo o primeiro como o principal intermediário entre o casal mandante, e o núcleo executor composto pelo também agente militar Heron Teixeira e o seu caseiro, Alex Cardoso. Foi Jackson que ofereceu o “serviço” a Heron mediante R$ 200 mil.

Após o crime, Jackson e Ícaro iniciaram a trama para ocultar a origem da arma usada no assassinato. A pistola Glock foi deliberadamente inserida em confronto policial forjado ocorrido em 12 de julho de 2024, poucos dias após a execução da vítima, em nítida tentativa de atrapalhar as investigações.
Segundo a denúncia, durante o cumprimento de prisão temporária, Ícaro tentou esconder seu celular numa bolsa que estava com seu pai durante um procedimento médico, conforme relatado por um Tenente Coronel que o acompanhou. Essa conduta, segundo os promotores, demonstrou a intenção deliberada de Ícaro em ocultar provas eletrônicas que pudessem incriminá-lo pelo crime.
As investigações revelaram que Ícaro chegou à clínica sem carteira e sem celular, alegando não ter nada, mas as imagens de segurança comprovaram que ele colocou o aparelho na bolsa do pai, sendo posteriormente recuperado um iPhone diferente do que estava usando inicialmente.
Jackson, por sua vez, tinha que justificar as expressivas transações bancárias feitas à época e, por isso, achou como saída por uma Hilux à venda na garagem de um amigo, "como se fosse pra vender e na hora que vendesse era pra mandar o dinheiro direto" aos mandantes, conforme relatado por Heron em seu interrogatório.
As investigações revelaram que Jackson encaminhou mensagens de "visualização única" com "foto escura e uma interrogaçãozinha" para pressionar o cumprimento do "serviço", o que, de acordo com a denúncia, evidenciou seu controle sobre a operação criminosa.
“O comportamento conjunto dos denunciados na articulação do confronto forjado, onde foi "encontrada" a arma do crime, representa manifesta inovação artificiosa do estado de lugar e coisa, com o propósito deliberado de se livrar definitivamente da arma utilizada no homicídio, criando uma versão oficial que justificasse sua apreensão e desviasse as investigações dos verdadeiros responsáveis pelo crime”, anotaram os promotres.

Além de oferecer a grana pela cabeça de Nery, a mando do casal, Jackson também repassou informações cruciais aos executores: como o endereço do escritório, horários de deslocamentos e detalhes da empreitada.

Ícaro, também da Rotam, forneceu a arma usada na execução: uma Glock adaptada, modelo G17, calibre 9mm, automatizada para disparos em rajada. Ele a entregou a Heron no próprio batalhão, em Cuiabá. Importante ressaltar que a arma em questão e as munições eram da PM, o que, para os promotores, evidenciou uma estrutura criminosa dentro da corporação.

Além disso, Ícaro agiu como intermediador financeiro: Jackson lhe entregou dois envelopes com R$ 40 e R$ 50 mil, vivos, e ele repassou o montante a Heron em notas de duzentos e cem reais no bairro Chapéu do Sol, Várzea Grande, depois da execução.

Quem puxou o gatilho na manhã do dia 5 de julho foi o caseiro de Heron, Alex Roberto de Queiroz Silva (já denunciado), que se posicionou em frente ao escritório de Nery e efetuou sete disparos em modo rajada (automático) direcionados à sua cabeça, surpreendendo-o e dificultando sua defesa.

Para os promotores, a utilização da arma automática em plena via pública, em horário comercial, configurou a qualificadora de perigo comum.

Além da intermediação, a dupla se articulou para obstruir as investigações. Jackson manteve contatos via WhatsApp e vídeo com advogados de defesa de Heron, monitorando ativamente o curso das investigações e buscando garantir o silêncio dele através de questões financeiras.

Seis dias após o assassinato de Nery, em 12 de julho, na Avenida Contorno Leste, capital, outros quatro policiais envolvidos na trama assassinaram Walteir Lima Cabral, além da tentarem homicídio contra Pedro Elias Silva e Jhuan de Oliveira. O confronto forjado, onde a pistola Glock usada no crime foi "encontrada", foi uma forma que o grupo encontrou para livrar da arma e desviar as investigações.

Além disso, Jackson e Ícaro concorreram ativamente para o crime de abuso de autoridade, utilizando-se do aparato estatal e da condição de agentes da segurança pública para criar uma narrativa falsa e responsabilizar terceiros inocentes, no caso as vítimas do confronto forjado.

Vale lembrar que a dupla é ré em outa ação, proveniente da Operação “Similacrum”, acusada de integrar um grupo de mercenários responsável por execuções sumárias em Cuiabá e Várzea Grande.

Diante disso, ambos foram denunciados pelo Ministério Público, que requereu o recebimento da acusação e que eles sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri.
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