Imprimir

Notícias / Criminal

Empresa ligada a deputado filmado comemorando licitação é condenada a devolver R$ 12 mi em esquema de fraude e triangulação

Da Redação - Pedro Coutinho

“Relação parasitária prolongada”, anotou a juíza Fernanda Gattass Oliveira Fidelis ao sentenciar as empresas que foram alvos da Operação Trapaça, que revelou esquema milionário de triangulação e fraudes em licitações, entre 2013 e 2017, facilitado pela ação política dos então prefeitos Valmir Moretto, de Nova Lacerda, e Wemerson Adão Prata, de Salto do Céu. Na mesma ordem, proferida em novembro de 2025, a magistrada ordenou a dissolução das cinco empresas usadas no esquema, bem como a devolução dos R$ 12 milhões movimentados por meio das 33 contratações fraudulentas.

Leia mais: 
Após áudio vazado, deputado nega ser dono de empresa que venceu licitação em MT: "é do meu irmão"


Hoje deputado estadual pelo Republicanos, Valmir Moretto teve que se explicar nesta semana por conta do vazamento de um áudio que o flagrou comemorando efusivamente a assinatura de um contrato de licitação firmado entre a Oeste Construtora e o Estado. Na filmagem, Moretto se diz dono da empresa. Horas depois, em entrevista concedida à imprensa, ele alegou que usou a expressão por 'hábito' e explicou que vendeu sua parte no empreendimento ao irmão, Glenio Moretto, em 2018. Interceptação telefônica realizada no mesmo ano pela polícia no âmbito da Operação Trapaça identificou conversa em que um dos interlocutores pede para que o nome de Moretto "não apareça porque ele é político".

No vídeo desta semana, em que comemora a licitação, Moretto estava ao lado do governador Mauro Mendes (União), em evento para assinaturada ordem de serviço do Hospital Regional de Pontes e Lacerda (448 km da capital), nesta terça-feira (17). Sem perceber que seu microfone estava ligado, o deputado disse que é dono de uma das empresas. “Quase R$ 200 milhões só aí”. Ao ser questionado sobre as empresas vencedoras, ele responde: “duas [empresas], a Agrimat e uma a minha”. Em seguida, com satisfação, declara: “Tá autorizado!”.

Sentença na Trapaça

Em 2019, a Polícia Federal deflagrou a Operação Trapaça. Na ocasião, a empresa ainda era ligada oficialmente ao deputado estadual Valmir Moretto (PRB), à época com nome de V.L. Moretto (atualmente Oeste Construtora) foi alvo de busca e apreensão. O ex-prefeito de Salto do Céu, Wemerson Adão Prata (PP), também teve a casa vasculhada por agentes. A federal os investigou por fazerem parte de um grupo que fraudava licitações. No exame da juíza, as fraudes foram comprovadas e demonstraram a “conduta parasitária” em relação aos cofres públicos.

No cerne do esquema estão as empresas Mirassol Construtora Eireli, N S Construtora; Prata Construtora e W P (Wmerson Prata) Construtora, que operavam em sincronia, triangulando as licitações para benefício do grupo, registradas em nome de laranjas por Rony Ferreira dos Anjos, apontado como o elo entre as famílias Prata e Moretto.

Conforme a magistrada, ao promover a varredura nos documentos apreendidos durante as buscas e apreensões, foi possível verificar envolvimento entre as empresas, com extensa confusão patrimonial entre as administradas por Wemerson Adao Prata, Wendel Alves Prata, Judson Sander Prata, Jadilson Alves de Souza e Rony Ferreira dos Anjos.

Aprofundando as investigações, foi descoberto o vínculo da empresa da família Moretto com as demais, uma vez que os agentes apreenderam na sede desta carimbos pertencentes à Judson Sander Prata (Prata & Cia Ltda.), tentativa de desvinculação da aquisição de bens junto à W P e transferências com suspeitas entre a Oeste e a WP, bem como dos sócios  Valmir Moretto e Glenio Moretto para Wendel Alves Prata.

Para fraudar os milhões, o esquema promovia a simulação de competitividade entre as companhias, e a utilização de veículos e maquinários das próprias prefeituras para a execução de obras adjudicadas à empresa Mirassol, que não possuía capacidade técnica ou operacional própria.
 
Interceptações telefônicas demonstraram ajustes diretos entre os envolvidos para a assinatura de documentos e o uso de carimbos de diferentes empresas por uma única pessoa. “RONY: - Se eles buscar em todas prefeituras em licitação que eu participei aí eles descobre a mentira [...] “RONY: - Você colocou o nome do VALMIR, VALMIR não pode assinar nada. Você sabe ele é político”, nos termos de trechos dos diálogos interceptados.

Segundo a sentença, o valor global das licitações sob suspeita entre 2013 e 2017, constantes em mais de 33 contratações, atingiu R$ 27 milhões. Contudo, as contratações detalhadas nos procedimentos específicos em que atuaram as rés totalizaram R$ 12.110.969,19.

No decorrer do processo, a juíza anotou que as empresas sequer deram o trabalho de tentar comprovar, mesmo que minimamente, que atuariam dentro da legalidade, tampouco demonstraram que prestavam serviços e atividades regulares em relação aos contratos investigados, ou qualquer elemento que pudesse confrontar as conclusões da Polícia Federal.

“A mesma nota da CGU manifesta que o telefone indicado como sendo de  MIRASSOL CONSTRUTORA EIRELI – ME estava cadastrado em nome de empresas ligadas a Judson Sander Prata e a ele próprio, sendo que, inclusive, no endereço Avenida São Luiz, 588, Jardim Paraíso, Cáceres/MT, indicado como sede de MIRASSOL CONSTRUTORA EIRELI – ME, funcionava de fato JS PRATA ME, empresa de Judson Sander Prata, irmão de Wemerson Adão Prata, à época Prefeito do Município de Salto do Céu e proprietário da empresa W P CONSTRUTORA LTDA – ME”, nos termos da sentença.

A Controladoria-Geral da União demonstrou ainda diversas ocorrências de pagamentos indevidos, fraudes em medições de avanço de obra, superfaturamento e sobrepreço. 

Diante dos robustos elementos que evidenciaram o conluio entre as empresas, políticos e empresários, no sentido de que fraudavam e triangulavam licitações para favorecer as referidas companhias, a juíza Fernanda Gattass Fidelis determinou a dissolução compulsória da Mirassol, N S Construtora, Prata Construtora, V.L. Moretto (Oeste Construtora) e W P Construtora.

Ordenou ainda que os alvos promovam a reparação dos R$ 12 milhões surrupiados nas fraudes. As duas famílias, Prata e Moretto, já embargaram a sentença. Ainda não há decisão sobre as contestações.
Imprimir