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Operação Sisamnes expõe esquema de venda de decisões judiciais e amplia investigação sobre corrupção no Judiciário

Da Redação - Arthur Santos da Silva

Deflagrada no fim de 2024, a Operação Sisamnes tornou-se uma das mais amplas e complexas investigações já conduzidas pela Polícia Federal envolvendo o Judiciário brasileiro. Autorizado e supervisionado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o inquérito apura a atuação de uma organização criminosa dedicada à venda de decisões judiciais, vazamento de informações sigilosas, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e até homicídio sob encomenda.

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As apurações tiveram início a partir da análise do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em setembro de 2023, em Cuiabá. As mensagens extraídas do aparelho revelaram diálogos com o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, indicando a intermediação de influência em gabinetes de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), com negociação de decisões judiciais mediante pagamento de propina.

Primeira fase: suspeita de venda de sentenças

A primeira fase da Operação Sisamnes foi deflagrada em 26 de novembro de 2024, quando a Polícia Federal cumpriu mandado de prisão preventiva contra Andreson e 23 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, Pernambuco e no Distrito Federal.

Segundo a PF, o esquema envolvia advogados, lobistas, empresários, assessores, chefes de gabinete e magistrados, com indícios de negociação de decisões judiciais favoráveis em troca de vantagens indevidas. Também foram identificados vazamentos de informações sigilosas, incluindo detalhes de operações policiais em andamento.

O STF autorizou medidas cautelares como afastamento de servidores públicos e membros do Judiciário, monitoramento eletrônico e sequestro de bens. O nome da operação faz referência ao juiz Sisamnes, personagem da mitologia persa que teria sido punido por aceitar suborno para proferir sentença injusta.

Na primeira fase, os principais alvos foram os desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) João Ferreira Filho e Sebastião de Moraes Filho.

Lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial

Em 20 de dezembro de 2024, menos de um mês depois, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da operação, voltada à apuração de crimes de lavagem de dinheiro. De acordo com os investigadores, os suspeitos teriam realizado sucessivas transações imobiliárias com o objetivo de ocultar a origem ilícita dos recursos obtidos com a venda de decisões judiciais.

Entre as medidas autorizadas pelo STF estiveram buscas e apreensões, afastamento de servidores do Judiciário, proibição de contato entre investigados, recolhimento de passaportes, bloqueio de aproximadamente R$ 1,8 milhão e sequestro de imóveis atribuídos a um magistrado.

Foram cumpridos mandados, inclusive, nos endereços de Alice Terezinha Artuso e de Maria de Lourdes Guimarães Filha, ambas ligadas ao desembargador João Ferreira Filho, investigado no caso.

Vazamentos e obstrução da Justiça

A terceira fase foi deflagrada em 18 de março de 2025 e avançou sobre uma nova frente investigativa. Segundo a Polícia Federal, foi identificada uma rede clandestina de monitoramento, comércio e repasse de informações sigilosas relativas a investigações sensíveis supervisionadas pelo STJ, comprometendo a eficácia de operações policiais.

Foram cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão no Tocantins, além do afastamento de funções públicas e imposição de restrições de contato e deslocamento. Nessa etapa, a operação passou a apurar a atuação do procurador de Justiça do Tocantins Ricardo Vicente da Silva, além da prisão preventiva de seu assessor, Thiago Marcos Barbosa de Carvalho.

Expansão do esquema e cifras milionárias

A partir de maio de 2025, a Operação Sisamnes ganhou proporções ainda maiores. Na quinta fase, deflagrada no dia 13, a Polícia Federal identificou uma rede financeira e empresarial estruturada para lavagem de dinheiro, câmbio clandestino e evasão de divisas. O objetivo seria romper o vínculo direto entre corruptores e agentes públicos, especialmente em decisões proferidas no âmbito do STJ.

O STF autorizou o cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão e o sequestro de bens e valores estimados em R$ 20 milhões. Entre os alvos esteve o ex-presidente da OAB-MT, Ussiel Tavares.

No dia seguinte, 14 de maio, a sexta fase resultou no cumprimento de dois mandados de prisão preventiva no Distrito Federal. Os investigados são suspeitos de praticar atos de obstrução da Justiça, com o objetivo de embaraçar o cumprimento das medidas judiciais determinadas na fase anterior.

Homicídio, espionagem e organização criminosa

A sétima fase, deflagrada em 28 de maio de 2025, representou uma inflexão significativa nas investigações ao incluir a apuração de crimes violentos. A Polícia Federal passou a investigar possíveis mandantes e coautores do assassinato do advogado Roberto Zampieri.

As apurações indicaram a existência de uma organização criminosa estruturada, envolvida em espionagem e homicídios sob encomenda. Foram cumpridos mandados de prisão, buscas e apreensões, além da imposição de monitoramento eletrônico e outras medidas cautelares em Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Corrupção no Judiciário estadual e novos vazamentos

No dia 29 de maio, a oitava fase da operação mirou um esquema de lavagem de dinheiro ligado à corrupção judiciária no Tribunal de Justiça de Mato Grosso. O juiz Ivan Lúcio Amarante foi afastado de suas funções, e a Justiça determinou o sequestro de bens e valores estimados em R$ 30 milhões.

Já a nona fase, deflagrada em 30 de maio, concentrou-se na apuração do vazamento e da comercialização de informações sigilosas de investigações da Polícia Federal, além de eventuais privilégios ilegais concedidos a um investigado preso no âmbito da própria operação.

Rede no STJ e influência institucional

Em 27 de junho de 2025, nova fase da Operação Sisamnes reforçou as suspeitas de atuação de uma organização criminosa dedicada ao vazamento sistemático de informações sigilosas oriundas de investigações em curso no Superior Tribunal de Justiça.

Segundo a Polícia Federal, o grupo utilizava esses dados para proteger aliados, frustrar ações policiais e consolidar redes de influência institucional, com a participação de agentes públicos, advogados e operadores externos.

Por determinação do ministro Cristiano Zanin, foram decretadas as prisões preventivas do prefeito de Palmas (TO), Eduardo de Siqueira Campos, do advogado Antônio Ianowich Filho e do policial civil Marco Augusto Velasco Nascimento Albernaz. A decisão atendeu a representação da Polícia Federal e contou com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
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