Alvo da nova fase da Operação Office Crime – O Elo, deflagrada nesta terça-feira (8) para investigar os intermediadores e mandantes do assassinato do advogado Renato Nery, o policial militar Jackson Pereira Barbosa também é denunciado pelo Ministério Público de ser um dos executores de três jovens que viviam na periferia de Cuiabá, em 2017. Agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em um condomínio de luxo onde Jackson reside — o mesmo local já havia sido alvo de diligências em novembro do ano passado, em Primavera do Leste.
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Simulacrum
Em junho do ano passado, ele e um grupo de 15 policiais militares, dentre eles membros do alto escalão da Rotam, foi apontado como um dos responsáveis diretos pela emboscada que culminou na execução sumária de Mayson Ricardo de Moraes Dihl, Fabrício Soares Ferreira e Deberson Pereira de Oliveira.
Conforme o ministério público, Jackson e outros oito militares foram os responsáveis por aguardar as vítimas no local do crime, de onde foram surpreendidas e executadas de maneira cruel e premeditada. Denúncia consta na ação penal da Operação Simulacrum, que investigou mais de 60 policiais suspeitos de matar 24 pessoas e simular confronto, na região metropolitana de Cuiabá.
Na época, a investigação apurou que os policiais contavam com a atuação de um colaborador que atraía interessados na prática de furtos e roubos, para o grupo ter um pretexto para matá-los.
De acordo com a peça acusatória, a ação criminosa teve início com o trabalho de aliciamento realizado por Ruiter Candido da Silva, vigilante de um supermercado e aliciador das vítimas e organizador do grupo.
Ele teria atraído as vítimas sob o pretexto de participarem de um suposto roubo a uma chácara, onde haveria dinheiro, ouro e armas. O plano, no entanto, visava unicamente levá-los ao local onde seriam executados.
As investigações apontam que Ruiter conduzia seu próprio veículo, um VW Gol preto, enquanto mantinha contato por viva voz com outros integrantes do grupo, que monitoravam sua localização em tempo real. O trajeto terminou no Mangueiral, onde duas viaturas – uma caracterizada e outra descaracterizada da ROTAM – já estavam posicionadas com os policiais prontos para a ação. Jackson estava em uma delas, segundo a denúncia.
As vítimas foram obrigadas a descer do carro, agredidas e torturadas antes de serem executadas a tiros. Os laudos indicam sinais de tortura física e psicológica, com evidências de vômito no local e hematomas provocados pelas agressões anteriores aos disparos. Os tiros que mataram os jovens foram feitos à curta distância, alguns com contato direto com a pele, configurando execução.
Além de Jackson Barbosa, também foram denunciados Túlio Aquino Monteiro, Abner James Lopes Silva, Luciano Baldoino dos Santos, André Luiz dos Santos Souza, Geraldo Vieira da Silva, Arlei Luiz Covatti, Tiago de Jesus Batista Borges, Vinícius Santos de Oliveira, Jonatas Bueno Trindade, João José Fontes Pinheiro Neto, José Roberto Rodrigues da Silva, Cleber de Souza Ferreira, Jhonatan Carvalho de Santana e Heron Teixeira Pena Vieira.
A denúncia descreve ainda que os envolvidos interferiram na cena do crime para simular um confronto, daí o nome da Operação. Apesar de afirmarem que as vítimas foram socorridas com vida, os laudos concluíram que os ferimentos foram letais e causaram morte ainda no local dos assassinatos. A conduta dos denunciados foi considerada uma forma de “teatralização”, com o objetivo de encobrir a execução.
Outro ponto levantado pelo Ministério Público é a tentativa de obstrução das investigações, com o envio para perícia de apenas seis das doze armas supostamente usadas na ação. Nenhuma pistola ou revólver foi encaminhado, o que inviabilizou o confronto balístico. A corregedoria da PM, em despacho, apontou tentativa clara de ocultar a verdade sobre os fatos.
O Ministério Público requer que todos os denunciados sejam levados a julgamento pelo Tribunal do Júri, por homicídio qualificado e, no caso de Ruiter Candido, também por integração e promoção de organização criminosa armada, com agravantes.
O processo segue em trâmite com recurso no Tribunal de Justiça de Mato Grosso. O órgão acusador apresentou à Corte contra decisão que concedeu a liberdade aos alvos enquanto ao ação tramita, com objetivo de que eles respondam presos. Ainda não há uma decisão.
O Elo
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em um condomínio de luxo onde Jackson reside — o mesmo local já havia sido alvo de diligências em novembro do ano passado.
De acordo com a Polícia Civil, os alvos da operação são suspeitos de envolvimento na intermediação e mando do crime, cuja motivação seria uma disputa por terras.
Outro envolvido na Simulacrum, Heron Teixeira Pena Vieira, também está preso suspeito de envolvimento na morte de Renato Nery.
Afastado do cargo
Recentemente, Jackson voltou a ganhar notoriedade após ser flagrado em um vídeo que circulou nas redes sociais no início de abril. As imagens mostram um homem caído no chão sendo espancado por um grupo de policiais militares.
Jackson foi um dos cinco agentes identificados e afastados após a divulgação do vídeo. A Polícia Militar informou que abriu um processo disciplinar para apurar os fatos e reforçou que não tolera abusos de autoridade.
A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) segue com as investigações para identificar todos os envolvidos na execução do advogado, que chegou a ser socorrido e submetido a cirurgia, mas não resistiu aos ferimentos.
Além de policial, Jackson também trabalha como construtor e corretor de imóveis de luxo.