Imprimir

Notícias / Criminal

Tortura, superlotação e poder paralelo: batismos forçados em presídio fazem facções 'proliferarem como mosquitos'; veja nomes

Da Redação - Pedro Coutinho

Batismos forçados, prática conhecida como “latão”, “chantili”, “garfo do capeta”, agentes embriagados e procedimentos de tortura: os atos que levaram um grupo de nove agentes penais, inclusive o diretor da Penitenciária Dr. Osvaldo Fiorentino Leite Ferreira (Ferrugem), serem denunciados pelo Ministério Público e entrarem na mira de inspeções judiciais que podem culminar em ações administrativas perante a corregedoria.

Leia mais: Diretor da Penitenciária Ferrugem já foi denunciado em 2022 por tortura conhecida como 'Garfo do Capeta'

Alvo principal de um recente relatório que aponta a existência de um poder paralelo na Ferrugem, o atual diretor da unidade, Adalberto Dias de Oliveira, já havia sido denunciado em 2022 junto com Clemir P. de Olandra; Fábio Eduardo Leite; Lindomar Braga Gasques; Marcelo Sales Rodrigues; Otaviano Rodrigues de Oliveira Neto; Paulo César Araújo Costa; Paulo Cézar de Souza e Roni de Souza, todos agentes penais da cadeia.

Adalberto Dias de Oliveira, diretor da Penitenciária Dr. Osvaldo Fiorentino Leite Ferreira (Ferrugem).

As acusações referem-se à prática de atos de sofrimento físico e mental contra pessoas privadas de liberdade, por meio de condutas não previstas em lei, que teriam ocorrido entre os anos de 2019 e 2020.

Adalberto é denunciado especificamente no chamado "fato 24". De acordo com a denúncia, entre setembro de 2019 e dezembro de 2020, na Penitenciária Ferrugem, o agente, juntamente com Paulo Cézar de Souza e Marcelo Sales Rodrigues, teria submetido o detento Adailton Rodrigo dos Santos Alves a intenso sofrimento físico e psicológico.

A peça acusatória detalha que, durante esse período, os denunciados teriam desferido golpes de cassetete contra a vítima. Além disso, o preso foi submetido a procedimentos de tortura conhecidos como “Garfo do Capeta” e “Chantili”.

Segundo a denúncia, o “Garfo do Capeta” consiste em “pingar sobre a pele da vítima um composto de vela que exala gás de pimenta”. Já o procedimento denominado “Chantili” consiste em “passar nos olhos da vítima um spray com um creme composto com pimenta”.

Já em 2025, novas inspeções realizadas na unidade demonstraram que as práticas continuam, o que coloca em risco o caráter ressocializador da execução penal.

Nos dias 22 e 23 de outubro de 2025, foi realizada visita extraordinária na Penitenciária, conduzida pelo Desembargador Orlando de Almeida Perri, Supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo do Estado de Mato Grosso (GMF/MT), acompanhado do Coordenador do GMF e Corregedor das unidades prisionais de Cuiabá e Várzea Grande, Dr. Geraldo Fernandes Fidelis Neto, e do assessor Elioenai Plens de Souza Amaro.

Uma semana depois, nova operação de fiscalização da unidade foi comandada pelos magistrados Marcos Faleiros da Silva e Paula Thatiana Pinheiro, com o 4 assessoramento dos servidores Marcos Eduardo Moreira Siqueri e Cássia Aparecida Silva Faleiros Coutinho.

Nos três casos, o cenário encontrado foi o mesmo: superlotação, já que o presídio tem capacidade para 1.328 presos, ao passo que 1.595 reeducandos se encontram custodiados; práticas de tortura; agentes bêbados; ofensas às autoridades; batismos forçados para criminosos que não eram faccionados; embaralhamento de presos de distintas facções; relatos de tortura; falta de insumos básicos de higiene e alimentação; drogas; e sessões de espancamento contra os presos, com uso de tiros de borracha, spray de pimenta e cassetetes.

Conforme conclusão das fiscalizações, a Ferrugem funciona como multiplicadora das facções, as quais, segundo o documento obtido pela reportagem, se “proliferam como mosquitos”.

“Somente a SEJUS não sabe que as prisões são as maiores pias batismais de facções criminosas”, diz outro trecho.

Os apontamentos são das visitas realizadas nos dias 22 e 23 de outubro de 2025 na Penitenciária Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, o Ferrugem, em Sinop (500 km ao norte de Cuiabá). O relatório aponta ainda que “as prisões são as maiores pias batismais de facções criminosas”.

Ao desembargador Orlando Perri, um detento contou que é faccionado no grupo chamado "Amigo dos Amigos" e que deveria estar preso no raio 8, isolado. Porém, ele está cumprindo a pena no raio 12, com membros do PCC, o que pode colocar a vida de toda comunidade carcerária em risco.
 
Outro contou ainda que não era faccionado e que foi retirado do raio Laranja, a "Igreja", após ser ameaçado de agressão. Depois disso, foi colocado no raio do PCC e passou a ser declarado mesmo da facção mesmo sem ser batizado.

“Ele não pode mais ter contato com o pessoal do Comando Vermelho. Já está aqui [...] a direção falou que ele era do PCC. Ele já sabe agora”, disseram os detentos. No caso desse preso que não era faccionado, ele ainda conta ao desembargador Orlando Perri que vai assinar iria assinar seu batismo no PCC.
Imprimir