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"Ele não vai viver para gastar o que tomou de mim": MP denuncia empresária e marido como mandantes do assassinato de Nery

Da Redação - Pedro Coutinho

"Ele não ia viver para gastar o que tomou de mim", teria sido a frase repetida pela empresária e produtora rural Julinere Goulart Bentos, esposa de Cesar Sechi, acusada de ser a mentora intelectual do assassinato do advogado Renato Nery, executado a tiros em julho de 2024, enquanto chegava em seu escritório na capital. Julinere, que já havia confessado a autoria em conversa informal junto ao delegado do caso, agora foi denunciada pelo Ministério Público como mandante do homicídio ao lado do marido, a partir novos elementos de prova como um envelope contendo o pagamento para a execução. Eles seguem presos enquanto aguardam julgamento.

Leia mais: Pistola rajada, envelopes de dinheiro e assassinato: dupla da Rotam que intermediou execução de Nery é denunciada

Na última sexta-feira (18), os promotores de Justiça Élide Manzini de Campos, Rinaldo Segundo e Vinicius Gahyva Martins aditaram a denúncia originalmente oferecida contra os policiais militares e intermediadores do crime, Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos, e acrescentaram Julinere e Cesar como os autores intelectuais. A dupla de policiais fora acusada em junho.

A motivação conforme as provas colhidas pelas investigações, e segundo os promotores, seria de fato a disputa por mais de 800 hectares de terra em Novo São Joaquim, avaliados em mais de R$ 30 milhões. Após mais de 20 anos de litígio, Nery obteve êxito na ação judicial, o que culminou no inconformismo por parte de Julinere e Cesar, os quais alegam veementemente que o advogado lhes tomou as terras.

Em junho, em depoimento informal junto ao delegado que presidiu as investigações, Julinere chegou a confessar a autoria do homicídio por não aguentar mais ouvir Cesar reclamar que Nery havia “tomado suas terras”. Em outras ocasiões, ela também externava a indignação contra Nery e a animosidade que tinha contra ele, chegando, inclusive, a ameaça-lo de morte.

Relato da testemunha Cláudio Roberto Natal Júnior, o qual é acusado por Nery de falsificar assinaturas durante as disputas judiciais, relatou que Julinere dizia que "ele não ia viver para gastar o que tomou dela". Posteriormente ao assassinato, Natal declarou compreender que a ameaça havia se concretizado.

“Evidenciou-se, destarte, que a denunciada Julinere, tomada por inconformismo diante de decisão judicial que beneficiou a vítima Renato Gomes Nery, articulou os contatos necessários para viabilizar sua execução. Ademais, no curso das investigações, a referida denunciada confessou, de forma informal, sua participação como autora intelectual do homicídio ao Delegado de Polícia Bruno Sérgio Magalhães Abreu, reforçando os demais elementos probatórios constantes dos autos”, anotaram os promotores.

Cesar Jorge Sechi, convivente de Julinere, também desempenhou papel crucial na função de mentor intelectual do crime, viabilizando o dinheiro para a empreitada. Segundo as investigações, foi Cesar que pagou R$ 200 mil ao militar Jackson, que atuou como intermediário entre o casal e o núcleo executor – liderado pelo também policial e agente da Rotam, Heron Teixeira.

Após o assassinato de Renato Gomes Nery, em outubro, Jackson afirmou que ainda não havia recebido o pagamento de Cesar para repassar a Heron e Alex Queiroz (responsável por puxar o gatilho). Diante disso, Jackson fez uma nota de cobrança à Cesar, a qual seria entregue a ele por Heron. Na carta estava a solicitação do pagamento dos R$ 200 mil via PIX.

Heron acondicionou o bilhete em envelope com a seguinte identificação: "aos cuidados de Cesar Jorge Sechi" e o entregou na portaria do condomínio residencial onde Cesar morava, o que, segundo os promotores, demonstrou cabalmente o conhecimento e a autoria de Sechi no crime.  

“O conteúdo do bilhete constitui prova irrefutável do contato entre os envolvidos após a consumação do delito e corrobora a autoria atribuível ao denunciado Cesar mormente no que concerne à articulação financeira e à contratação do réu Jackson como intermediário no assassinato da vítima Renato Gomes Nery”, anotaram os promotores.

Desta forma, concluiu a acusação que a articulação do homicídio aconteceu da seguinte forma: Julinere e Cesar, motivados por vingança diante da derrota na disputa judicial, contataram Jackson Barbosa, militar e vizinho deles em Primavera do Leste. Jackson, que mantém amizade com outros militares, contratou Heron e o executor Alex Roberto Queiroz Silva. Há ainda outros militares envolvidos na obstrução da trama. Eles forjaram um confronto para simular a autoria da arma usada para matar Nery.

Em 5 de julho de 2024, então, o homicídio foi consumado aproximadamente às 9h pelo plano arquitetado por Cesar e Julinere, implementado quando Alex surpreendeu Nery na frente de seu escritório, situado na Avenida Fernando Corrêa, em Cuiabá, efetuando os disparos que ceifaram sua vida, usando uma arma municiada com projéteis de procedência oficial, fornecida através dos policiais.

Diante disso, os promotores denunciaram o casal por homicídio, com as qualificadoras de motivo torpe, configurado pelo inconformismo e ressentimento da derrota judicial, caracterizada como “motivação mesquinha”, meio que resultou perigo comum, uma vez que a execução ocorreu em via pública e horário comercial e recurso que dificultou a defesa da vítima.
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