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Testemunhas mudam versão sobre mandantes do assassinato de Nery e apontam agressões e ameaças da polícia

Da Redação - Pedro Coutinho

Duas testemunhas da autoria intelectual do assassinato do advogado Renato Nery, executado a tiros em julho de 2024, em Cuiabá, mudaram as respectivas versões em audiência de instrução realizada nesta quarta-feira (16), perante a 14ª Vara Criminal da capital. A sessão, que ainda não finalizou diante da ausência do delegado que preside o inquérito, ocorreu no processo que apura a intermediação do crime, supostamente sob responsabilidade do policial militar Heron Teixeira, agente da Rotam, e a execução efetivada pelo seu caseiro, Alex Queiroz Silva – quem teria puxado o gatilho.

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Inicialmente apontado como suspeito do crime, hoje Kaster Hunttner Garcia atua como testemunha. Garcia foi preso em abril de 2025, sendo posteriormente solto. Ele é acusado de dar suporte no crime, suspeito de ser o braço direito de Heron e auxiliar Alex com a procura de uma chácara e da motocicleta usada na execução.

Kaster, então, depôs na ação que denuncia Heron e Alex por homicídio qualificado e fraude processual. Foi a partir dele que surgiu o nome do também policial militar Jackson Barbosa, sendo ele o primeiro a mencionar um "casal de primavera do leste que morava no mesmo condomínio do Jackson". O casal em questão foi indiciado na semana passada pela Polícia Civil como sendo o responsável por encomendar a morte de Nery.

Na última sexta-feira (11), Julinere Goulart Bentos e César Jorge Secchi foram indiciados pelo crime de homicídio qualificado, possivelmente motivado por conta de uma “vingança judicial” envolvendo uma propriedade rural de mais de 12 mil hectares em Novo São Joaquim, região leste de Mato Grosso. Inicialmente a polícia já tinha chegado até Alex e Heron, mas somente localizou Jackson e o casal a partir das primeiras declarações de Kaster – as quais agora foram alteradas perante a Justiça.

Acusação contra policiais e mudança de versão 

Quando no momento de sua prisão, Kaster teria apontado os possíveis mandantes e, diante disso, a polícia informou que não tinha mais interesse na sua detenção e, no mesmo dia, foi posto em liberdade sem ao menos ter passado por exame de corpo e delito. Na audiência de hoje (16), então, ele informou que foi espancado, ameaçado e coagido pelos agentes a contar a versão inicial.

Já a esposa de Alex Queiroz inicialmente disse à polícia que uma vez ouviu ele dizer que “o Jackson fodeu com minha vida”. Contudo, hoje afirmou que nunca ouviu isso e que foi induzida a informar o nome do PM após ser levada para uma sala particular na delegacia. A mudança nas versões pode colocar em xeque as investigações e as conclusões feitas até então. Enquanto isso, a defesa de Kaster busca comprovar que ele foi espancado para expor a primeira versão. 

A instrução desta quarta foi realizada para ouvir testemunhas e os réus Alex e Heron, os quais ainda não depuseram diante da ausência do delegado Bruno Abreu, que preside o inquérito. Ficou então marcada a continuação para a próxima quarta-feira, com a oitiva de Bruno e depois os interrogatórios de Heron e Alex.

As alterações nos depoimentos corroboram com a percepção da família de Nery sobre o indiciamento do casal mandante. Um ano após a execução do advogado e ex-presidente da OAB-MT, sua filha, Lívia Nery, concedeu entrevista ao Olhar Direto, retratando o sentimento que ainda paira na família diante das indefinições investigativas, sobretudo porque o caso ainda permanece com “muitas pontas soltas”.

Lívia, ao lado do advogado da família, Walmir Cavalheri, relatou a exaustão familiar diante da ausência de respostas definitivas e questionou a versão oficial apresentada pela investigação quanto aos supostos mandantes, Julinere Goulart e Cesar Sechi, à motivação do crime e ao valor pago pela execução, na casa dos R$ 200 mil. 

Lívia Nery avalia que, apesar do avanço das investigações, “o caso está parcialmente resolvido”. Ela afirma que a família foi surpreendida com o envolvimento de agentes públicos, sobretudo de tantos policiais. “Ninguém imaginava que eram policiais de cargos de confiança, da Rotam. Pessoas que deveriam proteger a sociedade, envolvidas no crime. Isso nos abalou muito”, lamentou.

A filha de Renato também relatou desconfiança sobre o comportamento dos agentes que estiveram na cena do crime. “Será que quem executou estava ali junto da família?”.

Sobre os apontados como mandantes —Goulart e Sechi — Lívia diz que ainda restam muitas dúvidas. “Eles perderam as terras há cinco anos. Por que teriam guardado sede de vingança por tanto tempo? O que ganhariam com isso? E por que gastar tanto dinheiro apenas por vingança? Não faz sentido”, questionou.

Julinere chegou a confessar o crime em depoimento informal, alegando que agiu após repetidas manifestações do marido, Cesar, que culpava Renato pela perda da propriedade rural.

A estimativa apresentada pela polícia é que o crime teria custado cerca de R$ 200 mil. Para Lívia, porém, o valor informado é questionável. “Se já foram indiciadas 12 pessoas, sendo 10 presas, estamos falando de policiais concursados. Dividir R$ 200 mil entre eles não parece viável. Eu acho pouco provável que esse tenha sido o valor real. Nenhuma vida vale dinheiro”.

A filha do advogado também afirmou que, apesar do esforço das autoridades, o inquérito segue inconcluso. “A polícia não nos passa detalhes por conta do sigilo, mas sabemos que ainda estão apurando fatos, inclusive com buscas recentes. Há indícios de que outras pessoas possam estar envolvidas”.

Heron e Alex denunciados

Em maio, os dois foram denunciados por homicídio qualificado — com as agravantes de promessa de recompensa, perigo comum, dificuldade de defesa da vítima e idade avançada da vítima —, além de fraude processual (por tentativas de ocultar provas e dificultar as investigações) e organização criminosa. O PM também foi acusado de abuso de autoridade, por uso indevido do poder.

As investigações apontam que Alex e Heron planejaram o assassinato do advogado, monitorando sua rotina antes da execução. Após o crime, Alex teria queimado objetos utilizados na ação e trocado de celular diversas vezes. Ambos também tentaram esconder a motocicleta usada na fuga.

Heron seria o cabeça do “núcleo de intermediação”, responsável por fazer a ponte entre os mandantes e o executor, negociando valores, repassando ordens e garantindo que as determinações fossem cumpridas. Com auxilio de terceiros, recebeu a encomenda do crime, contratou o executor, procedeu a ações de monitoramento e providenciou os meios materiais (arma, chácara como local para o esconderijo).
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