Decisão que decretou a prisão preventiva de Odanil Gonçalo Nogueira da Costa, conhecido como MC Mestrão, identifica núcleo estruturado da organização com forte atuação no Residencial Isabel Campos, em Várzea Grande. Segundo as investigações da Polícia Civil, o suspeito acumulava as funções de propagandista ideológico e colaborador logístico, sendo responsável pela oferta de esconderijos para veículos roubados e mantendo ligação direta com a cúpula da facção no Rio de Janeiro.
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As evidências colhidas pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), documentos que o Olhar Jurídico teve acesso, apontam que Odanil geria a infraestrutura para ocultação de bens ilícitos. Em diálogos interceptados em fevereiro de 2024, o líder do grupo na região, vulgo "Ceará", consultou Mestrão sobre a disponibilidade de um "mocó" para guardar uma caminhonete Fiat Toro.
De acordo com trecho do relatório policial, “o diálogo com Ceará em fevereiro de 2024 demonstra apoio direto a crimes patrimoniais, ao disponibilizar ‘mocó’, bem como negociar a receptação de veículos”. Durante as conversas, o suspeito demonstrou cautela operacional ao questionar se o veículo roubado possuía rastreador e ao observar que a frente do local sugerido para a guarda estava muito movimentada.
Conexão com Batman
A investigação revelou que a influência de Mestrão ultrapassava as fronteiras de Mato Grosso, mantendo trânsito livre em redutos controlados pela facção no Rio de Janeiro. Ele é apontado como um contato próximo de Jonas Souza Gonçalves Júnior, o "Batman", conselheiro do Comando Vermelho que se encontra foragido.
Relatórios técnicos da polícia indicam que Mestrão frequentava assiduamente a residência de Batman na Favela da Rocinha, local descrito como um centro de operações. Conforme trecho de decisão do Tribunal, o imóvel era “utilizado como verdadeiro QG de faccionados do Mato Grosso, inclusive para guarda e negociação de armamentos de grosso calibre”.
Imagens extraídas da nuvem de investigados mostram o MC na cobertura da casa de Batman, realizando gestos de identificação com a facção e performando músicas de apologia ao crime.
Propaganda ideológica
Além do suporte logístico, Odanil utilizava sua projeção como artista para disseminar a ideologia da organização. Em suas letras, ele mencionava nominalmente lideranças regionais e regras disciplinares internas, o que, para os investigadores, “extrapola qualquer alegação de neutralidade artística e revela vínculo estável, consciente e funcional com a organização criminosa”. Em um dos registros audiovisuais, ele aparece cantando versos que celebram punições aplicadas pela facção contra desafetos.
Diante da gravidade dos fatos e do risco à ordem pública, a magistrada Henriqueta Fernanda Chaves Alencar Ferreira Lima acolheu o pedido do Ministério Público para a segregação cautelar do investigado. A decisão fundamenta-se na necessidade de interromper as atividades do núcleo criminoso, que exerce um "poder paralelo" sobre comunidades locais.
Além da prisão, foram autorizadas buscas e apreensões em endereços ligados ao suspeito, visando coletar novos elementos sobre a movimentação financeira do grupo.