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Sexta-feira, 03 de abril de 2026

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PROVA USADA PELO MP

R$ 200 mil pela cabeça de Nery: meses após o assassinato, PM enviou carta a fazendeiro cobrando o "PIX" pelo crime

Foto: Reprodução

R$ 200 mil pela cabeça de Nery: meses após o assassinato, PM enviou carta a fazendeiro cobrando o
Além da confissão informal corroborada por testemunha, outra prova foi considerada fundamental pelo Ministério Público para aditar a denúncia contra Julinere Goulart Bentos e Cesar Jorge Sechi, e acusa-los de serem os mandantes do assassinato do advogado Renato Nery, em Cuiabá: um bilhete escrito à mão pelo policial militar e acusado de intermediar o crime, Jackson Barbosa, à Cesar Sechi, em que solicitou os R$ 200 mil combinados para a execução.


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Segundo o MP, o casal teria contratado o homicídio por R$ 200 mil, após decisão judicial que favoreceu Renato em ação relacionada a terras no município de Novo São Joaquim. A denúncia aponta que Sechi, então esposo de Julinere, foi o principal responsável pela articulação financeira do crime, atuando como um dos mentores da empreitada criminosa ao lado dela.

O envolvimento de César Sechi foi detalhado pelos promotores que assinaram a denúncia na última sexta-feira (18), Élide Manzini de Campos, Rinaldo Segundo e Vinicius Gahyva. Eles sustentam que Cesar, além de coautor intelectual do homicídio, intermediou os pagamentos por de Jackson. O episódio em questão ocorreu meses após o assassinato.

Em outubro de 2024, o também militar e agente da Rotam, acusado de também intermediar o crime, Heron Teixeira Pena Vieira encontrou Jackson na rodoviária. Segundo relato, Heron estava “de mãos abanando”, sem o dinheiro que deveria receber pelo homicídio. Como forma de cobrança, Jackson escreveu um bilhete à mão exigindo o pagamento da quantia combinada, solicitando à Sechi que o valor fosse enviado via transferência eletrônica (PIX). O bilhete foi entregue por Heron em envelope identificado “aos cuidados de César Jorge Sechi” na portaria do condomínio onde o fazendeiro residia.

 
Para o Ministério Público, a carta de cobrança comprova o vínculo direto de Sechi com a execução do crime, além de confirmar seu conhecimento e participação ativa nas negociações com os intermediários e autores do homicídio.

Ainda de acordo com a acusação, o crime foi cometido em plena via pública, em frente ao escritório da vítima, no bairro Pico do Amor, em horário de grande circulação, dificultando qualquer possibilidade de defesa. A arma utilizada era de uso restrito, fornecida no contexto da organização criminosa formada por mandantes, intermediários e executores.

O MP classificou o caso como homicídio qualificado por motivo torpe, com emprego de meio que resultou perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de solicitar o aumento de pena por se tratar de idoso. Também foi imputada aos envolvidos a prática de organização criminosa, pela divisão de tarefas e estrutura deliberada para execução do assassinato.

O aditamento foi apresentado no último dia 18 e requer o recebimento das novas acusações, a citação dos denunciados e a continuidade do processo, que pode culminar com julgamento dos réus pelo Tribunal do Júri.
A motivação conforme as provas colhidas pelas investigações, e segundo os promotores, seria de fato a disputa por mais de 800 hectares de terra em Novo São Joaquim, avaliados em mais de R$ 30 milhões. Após mais de 20 anos de litígio, Nery obteve êxito na ação judicial, o que culminou no inconformismo por parte de Julinere e Cesar, os quais alegam veementemente que o advogado lhes tomou as terras.

Em junho, em depoimento informal junto ao delegado que presidiu as investigações, Julinere chegou a confessar a autoria do homicídio por não aguentar mais ouvir Cesar reclamar que Nery havia “tomado suas terras”. Em outras ocasiões, ela também externava a indignação contra Nery e a animosidade que tinha contra ele, chegando, inclusive, a ameaça-lo de morte.

Relato da testemunha Cláudio Roberto Natal Júnior, o qual é acusado por Nery de falsificar assinaturas durante as disputas judiciais, relatou que Julinere dizia que "ele não ia viver para gastar o que tomou dela". Posteriormente ao assassinato, Natal declarou compreender que a ameaça havia se concretizado.

“Evidenciou-se, destarte, que a denunciada Julinere, tomada por inconformismo diante de decisão judicial que beneficiou a vítima Renato Gomes Nery, articulou os contatos necessários para viabilizar sua execução. Ademais, no curso das investigações, a referida denunciada confessou, de forma informal, sua participação como autora intelectual do homicídio ao Delegado de Polícia Bruno Sérgio Magalhães Abreu, reforçando os demais elementos probatórios constantes dos autos”, anotaram os promotores.
Desta forma, concluiu a acusação que a articulação do homicídio aconteceu da seguinte forma: Julinere e Cesar, motivados por vingança diante da derrota na disputa judicial, contataram Jackson Barbosa, militar e vizinho deles em Primavera do Leste. Jackson, que mantém amizade com outros militares, contratou Heron e o executor Alex Roberto Queiroz Silva. Há ainda outros militares envolvidos na obstrução da trama. Eles forjaram um confronto para simular a autoria da arma usada para matar Nery.

Em 5 de julho de 2024, então, o homicídio foi consumado aproximadamente às 9h pelo plano arquitetado por Cesar e Julinere, implementado quando Alex surpreendeu Nery na frente de seu escritório, situado na Avenida Fernando Corrêa, em Cuiabá, efetuando os disparos que ceifaram sua vida, usando uma arma municiada com projéteis de procedência oficial, fornecida através dos policiais.

Diante disso, os promotores denunciaram o casal por homicídio, com as qualificadoras de motivo torpe, configurado pelo inconformismo e ressentimento da derrota judicial, caracterizada como “motivação mesquinha”, meio que resultou perigo comum, uma vez que a execução ocorreu em via pública e horário comercial e recurso que dificultou a defesa da vítima.
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