A nutricionista F.R.W.B. processou o dentista Pedro Gonçalves de Souza Júnior na Justiça, lhe cobrando indenização de R$ 40 mil por danos morais causados contra a honra e imagem profissional, consistente na sua conduta difamatória nas redes sociais, onde ofendeu a categoria da nutrição e usou uma foto dela para humilhar sua reputação.
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"Vejo que os nutricionistas na sua grande maioria não tem resultados claros, estão retidos, inchados, com sobrepeso, gordos. NÃO DÁ PRA IR NUM NUTRICIONISTA GORDO!", disse Pedro no último dia 29 em suas redes, as quais possuem mais de 40 mil seguidores. Após referido dito, F. lhe contestou por mensagem, momento em que ele compartilhou uma foto dela em seu perfil para difamá-la.
Embora tenha ocultado parcialmente o rosto da nutricionista, o post permitiu que ela fosse reconhecida por amigos, pacientes e colegas de profissão. A imagem foi acompanhada da legenda ofensiva: "olha o shape da pessoa". Importante lembrar que a crueldade do ato se acentua, uma vez que F. é diagnosticada com lipedema (CID-10 EF02.2), doença vascular que causa o acúmulo desproporcional de gordura nas pernas e braços, resistente a dietas e exercícios, e que causa dor e sofrimento.
Para embasar o pedido, a defesa de F. destacou que, além da crueldade, o conteúdo ofensivo produzido por Pedro atingiu mais de três milhões de pessoas, conforme ele próprio se vangloriou nas redes.
“Mesmo diante de toda a repercussão e das medidas administrativas, o requerido persistiu em sua conduta, reiterando as ofensas e vangloriando-se do aumento de seguidores que a "polêmica" lhe teria gerado, evidenciando seu total desprezo pela ética profissional e pela dignidade da requerente”, diz trecho do documento obtido pela reportagem.
Diante disso, a nutricionista ofendida postulou pelo pagamento de indenização não inferior aos R$ 40 mil, montante que considerou a gravidade dos fatos, a repercussão da ofensa e o caráter punitivo da medida. Também pediu que Pedro publique uma retratação pública pedindo desculpas aos nutricionistas e todas as pessoas que ofendeu.
Antes de decidir sobre o pedido, a juíza Graciene Pauline Mazeto Corrêa da Costa ordenou que a nutricionista corrija a petição inicial com os devidos documentos, bem como negou pleito para decretação de sigilo nos autos. Em âmbito federal, ele responde a queixa-crime movida pelo Conselho Nacional de Nutricionista, que cobra providências judicias contra as declarações do médico.
Pedro foi suspenso no começo do mês pelo Conselho Regional de Odontologia (CRO-MT). A entidade repudiou declarações feitas pelo profissional nas redes sociais. Nas publicações, ele ofendia profissionais da nutrição e educadores físicos, dizendo que a maioria deles seriam “gordos”, “acima do peso”, e que, com base em seu “shape definido” e nas aulas de “coach” que fez, está lançando um programa de emagrecimento chamado “Doclife”.
O CRO emitiu nota reforçando que Pedro Junior, proprietário da clínica Rizzit, não é habilitado e não possui inscrição no conselho de nutrição, de modo que sua forma de agir tem colocado em risco a sociedade e o bem-estar da população. Após denúncia do Olhar Jurídico de que a clínica já era alvo de processo no CRO por empregar estagiárias em funções profissionais, bem como atuar com falta de higiene na confecção de produtos laboratoriais, o local foi alvo de operação da Polícia Civil, a Vigilância Sanitária Municipal de Cuiabá, o Procon Municipal.
Durante a ação realizada no último dia 9, os policiais civis e fiscais identificaram dois indivíduos exercendo a função de auxiliares de prótese dentária sem possuírem curso profissionalizante, registro no conselho de classe competente e sem a supervisão de responsável técnico, em desacordo com as normas legais que regulamentam a atividade odontológica no país.
Além dessa investigação, o proprietário do local responde ainda a procedimento policial instaurado no ano de 2023, também pela Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor, envolvendo fatos semelhantes, quando uma estudante foi flagrada em sua clínica trabalhando como cirurgiã-dentista antes da conclusão do curso superior.
Processos na Justiça
Conforme adiantado pela reportagem, Pedro responde a pelo menos cinco processos na Justiça, a maioria deles sendo cobrado pelos danos morais e materiais causados a pacientes que pagaram caro para tratamentos estéticos bucais, mas que não obtiveram o resultado desejado, inclusive com sérias complicações como sangramentos gengivais, inflamações, perdas ósseas e de lentes. No caso do paciente C.H., que teve até um pedaço de luva cirúrgica "esquecido" no meio de um dente por meses, Pedro foi condenado a pagar mais de R$ 14 mil pelos prejuízos. Somadas, as ações buscam mais de R$ 255 mil em indenizações.