Em delação premiada no âmbito da Operação Bilanz, a ex-diretora financeira da Unimed Cuiabá, Suzana Aparecida Rodrigues dos Santos, afirmou que o ex-presidente da cooperativa, Rubens Carlos de Oliveira Júnior, era o mentor do suposto rombo de R$ 400 milhões e descreveu encontros informais regados a vinho e jantares em residências onde contratos possivelmente fraudulentos eram assinados. O
Olhar Jurídico obteve acesso ao conteúdo da delação, prestada por Suzana entre abril e junho de 2025, com a homologação efetivada no último dia 10 por ordem do juiz Jeferson Schneider, da 5ª Vara Federal de MT.
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Segundo Suzana, as reuniões ocorriam em uma sala anexa ao gabinete da presidência, na Unimed Cuiabá, e também em casas de diretores, especialmente da ex-chefe jurídica Jaqueline Proença Larrea, que, conforme relatou, organizava os encontros e levava documentos para assinatura. À Suzana, Jaqueline havia confirmado que retirava tais documentos pois eram "muito sérios" e tinha medo de que desaparecessem da sede.
Suzana disse que as reuniões com vinho não tinham pauta formal e funcionavam como “happy hour”, com a presença de pessoas interessadas em assuntos da cooperativa – em sua maioria organizados por Rubens e Jaqueline. Ela confirmou que contratos eram assinados nessas ocasiões, e que, inclusive, nesse contexto, um médico que atuava como auditor teria alertado sobre as possíveis irregularidades nos Diops (Documento de Informações Periódicas das Operadoras de Planos de Assistência à Saúde) enviados à Agência Nacional. Após o alerta, ele foi exonerado.
Em um jantar na residência de Jaqueline, no Florais do Vale, luxuoso condomínio da capital, relatou ter visto Rubens assinar documentos da Unimed e, a pedido dele, também assinou um contrato no local.
Questionada sobre a falsificação de balanços, fato que culminou na operação, Suzana declarou não acreditar que os demonstrativos contábeis fossem falsos, mas afirmou que, caso fossem, isso somente ocorreria mediante o aval da presidência.
Disse ainda que a contadora, Maria Gladis, era a responsável por elaborar eventuais irregularidades, já que somente ela detinha a capacidade técnica para tal, mas que a autorização dependeria do presidente, reforçando sua avaliação de que Rubens tinha controle sobre as decisões.
“A qual tinha uma comunicação com a sala do vinho. Mas eu nunca a vi nessas reuniões, onde serviam vinhos. E eram reuniões informais, não eram reuniões pautadas. Era assim... Cheguei e estou fazendo parte. Era um happy hour. “Não, lá no jantar, naquele jantar mesmo, ele falou para mim, assina, eu assinei um, e aí eu falei assim, por que esses papéis estão aqui? Aí, ela me disse assim, eu guardo na minha casa, por que esses são documentos muito sérios, e que eu tenho medo que eles desapareçam dentro da Unimed”, nos termos da delação, obtida pelo
Olhar Jurídico.
A delação integra as investigações do Ministério Público Federal sobre um suposto rombo de cerca de R$ 400 milhões na Unimed Cuiabá entre 2019 e 2023. Conforme apurado na Operação Bilanz, ex-dirigentes teriam firmado contratos milionários com empresas sem atividade comprovada para desviar recursos da cooperativa, além de simular intermediações financeiras e realizar pagamentos por serviços não executados.
Os investigados respondem por crimes como estelionato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
São alvos da ofensiva, além de Suzana, Rubens Carlos de Oliveira Junior (ex-presidente); Jaqueline Proença Larrea (ex-chefe jurídica); Eroaldo de Oliveira (ex-CEO); Ana Paula Parizotto (ex-superintendente); e Tatiana Gráciele Bassan Leite (ex-chefe de monitoramento).
Para se livrar das sanções das denúncias e inquéritos, Suzana firmou a delação premiada. O acordo inclui ação penal que investiga crimes de falsidade ideológica; sete Procedimentos de Investigação Criminal (PICs), um Inquérito Policial (IPL) e uma Ação Civil Pública (ACP). Todos os desdobramentos e novos procedimentos decorrentes dos fatos revelados pela colaboradora entre abril e junho de 2025.
Para garantir os benefícios do acordo, Suzana teve que identificar os coautores e participantes da organização investigada, revelar a estrutura hierárquica e a divisão de tarefas, bem como a recuperação do montante desviado.
Em contrapartida, o Ministério Público Federal lhe ofereceu a redução de pena em 1/2, podendo chegar a 2/3 a depender da eficácia da colaboração, referente a ação de falsidade ideológica. Nas demais investigações, Suzana receberá o perdão judicial e terá eventual pena privativa de liberdade substituída por restritivas de direitos.