O ano de 2025 ficou marcado por uma série de crises enfrentadas pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), com reflexos diretos na relação entre a presidência da Corte, os desembargadores, os servidores e os demais Poderes. Os episódios evidenciaram tensões entre o presidente José Zuquim Nogueira e seus pares, a controvérsia em relação ao reajuste de 6,8% nos salários dos servidores e a investigação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre os R$ 75 milhões pagos indevidamente em horas extras aos funcionários do TJ. Apesar das crises, a Corte foi agraciada em dezembro com o Selo Diamante do CNJ.
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Em agosto, o presidente José Zuquim Nogueira passou a enfrentar isolamento interno e perda de apoio entre os pares. Reuniões do Tribunal Pleno foram esvaziadas, sessões do Órgão Especial deixaram de ocorrer por ausência deliberada de desembargadores e o discurso de protesto ganhou forma institucional. Magistrados passaram a questionar a condução da presidência diante das sucessivas crises que atingiam o Judiciário estadual, apontando falta de diálogo, decisões unilaterais e comprometimento da legitimidade da gestão.
O desgaste se aprofundou em setembro, quando Zuquim chegou a anunciar que acionaria o Conselho Nacional de Justiça contra integrantes do Órgão Especial que boicotaram sessões de julgamento. O vazamento de trechos de uma sessão virtual, em que o presidente repreendia os colegas e mencionava o CNJ, ampliou a tensão. Em seguida, o próprio Pleno do Tribunal demonstrou o isolamento do presidente ao não comparecer, quase integralmente, a uma reunião convocada por ele. Diante da reação dos pares, Zuquim recuou, adotou discurso de conciliação e buscou diálogo com a Corregedoria-Geral de Justiça para tentar recompor a governabilidade interna.
O pano de fundo desse embate envolvia uma sequência de problemas acumulados, em especial a condução da Operação Sepulcro Caiado, que investigou o desvio de cerca de R$ 20 milhões da Conta Única do Tribunal. A operação resultou no afastamento de servidores da Corte após inspeção do CNJ, o que expôs fragilidades e gerou críticas à atuação da corregedoria e da presidência, que tinham conhecimento prévio da investigação.
A inspeção ocorreu em um contexto já sensível, com o Judiciário sob questionamentos relacionados à Operação Sisamnes, que afastou os desembargadores Sebastião de Moraes e João Ferreira Filho, e o juiz Ivan Amarantes por envolvimento no esquema de venda de sentenças com o advogado assassinado Roberto Zampieri, ao debate sobre supersalários e a episódios que afetaram a imagem institucional da Corte.
Paralelamente às disputas internas, o Tribunal enfrentou, ao longo do segundo semestre, uma mobilização crescente dos servidores em torno do reajuste salarial de 6,8%. O projeto, aprovado por unanimidade no Tribunal Pleno em setembro e encaminhado à Assembleia Legislativa, previa impacto financeiro escalonado e foi acompanhado de estudos orçamentários apresentados pelo próprio Judiciário. Apesar de receber parecer favorável nas comissões, a proposta não avançou com a rapidez esperada, levando o Sindicato dos Servidores do Judiciário a convocar assembleias e anunciar paralisação caso não houvesse votação.
Em dezembro, após a aprovação do projeto pela Assembleia Legislativa, o governador Mauro Mendes vetou integralmente o reajuste. O Executivo alegou risco fiscal, criação de despesa permanente sem comprovação de sustentabilidade e proximidade do Judiciário com os limites legais de gasto com pessoal. O veto reacendeu a mobilização dos servidores e transferiu o embate para o plenário do Legislativo, onde a decisão do governo acabou mantida por margem mínima em votação secreta.
A manutenção do veto provocou forte reação sindical. O Sinjusmat anunciou medidas judiciais para questionar a sessão, alegou irregularidades na votação e chegou a protocolar pedido de impeachment do governador, sob o argumento de interferência na autonomia financeira do Judiciário. Deputados que haviam votado favoravelmente ao projeto durante sua tramitação criticaram a mudança de posicionamento na votação do veto, apontando contradições que fragilizaram a imagem do Parlamento diante dos servidores que acompanhavam a sessão.
Ainda em novembro, outra frente de crise ganhou dimensão nacional com a divulgação de auditoria interna que apontou pagamentos irregulares de horas extras e diárias a servidores comissionados e ocupantes de cargos de confiança.
O levantamento indicou falhas graves de controle, ausência de comprovação documental e práticas de convocação retroativa, com valores que somaram R$ 73,5 milhões entre 2023 e 2024. O caso chegou ao CNJ por meio de Procedimento de Controle Administrativo e resultou em determinação para que o Tribunal fornecesse dados detalhados ao sindicato e instaurasse processos administrativos para apuração individual de responsabilidades.
A decisão do conselheiro Guilherme Feliciano classificou o cenário como de descontrole administrativo e determinou o envio dos autos à Corregedoria Nacional e ao Ministério Público. A presidência do Tribunal suspendeu temporariamente o pagamento de serviços extraordinários, criou comissão especial e anunciou ajustes nos sistemas internos, mas o episódio aprofundou o desgaste institucional já existente.
Ao final de 2025, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso encerrou o ano sob o impacto de conflitos internos, fiscalização externa intensificada, disputas políticas em torno de orçamento e remuneração e questionamentos sobre seus mecanismos de controle administrativo. A sucessão de episódios evidenciou um período de instabilidade que marcou a Corte. Apesar disso, a gestão de Zuquim foi congratulada com o Selo Diamante, expedido pelo CNJ.
Já em dezembro, concedido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a premiação reconheceu a eficiente atuação do Judiciário de Mato Grosso, o colocando entre os tribunais nacionais que melhor atendem a população.