As investigações da Operação “Gorjeta”, deflagrada nesta terça-feira (27) pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), apontam que o Instituto Brasil Central (Ibrace) foi cooptado para integrar o esquema de desvio de emendas parlamentares da Câmara Municipal de Cuiabá, em sua maioria de autoria do vereador Chico 2000, o qual fora afastado do cargo, em benefício do empresário João Chiroli e suas empresas. Segundo a Polícia Civil, embora formalmente constituído como associação privada sem fins lucrativos, o instituto apresenta indícios de funcionamento atrelado a interesses privados de Chico.
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Um dos principais pontos destacados no inquérito é o endereço do Ibrace. A entidade tem como sede registrada um imóvel localizado no bairro Morada do Ouro II, em Cuiabá. Acontece que no mesmo local funcionam o Instituto Social Mato-Grossense (ISMAT), também uma associação privada sem fins lucrativos criada em janeiro de 2022, e a empresa MT Mensura.
Além do compartilhamento de sede, a Polícia Civil apurou coincidência relevante de integrantes nas estruturas associativas do Ibrace e do ISMAT. Das 17 pessoas envolvidas nos dois institutos, cinco exercem ou exerceram funções em ambas as entidades, ainda que em cargos distintos.
Entre elas estão Alex Jony Silva, presidente do Ibrace e tesoureiro do Ismat, acusado de receber dinheiro vivo de Chiroli e Chico; Osvaldo de Souza Brito, presidente do conselho fiscal do Ibrace e conselheiro fiscal do Ismat.
No campo financeiro, os dados do Portal da Transparência do Município de Cuiabá mostram que, entre 22 de novembro de 2022 e 9 de abril de 2025, o Ibrace recebeu R$ 5,48 milhões em repasses da prefeitura.
Desse total, R$ 3,65 milhões — cerca de 66% — tiveram origem em emendas parlamentares impositivas do vereador Chico 2000. A maior parte dos recursos foi destinada à realização de corridas de rua na capital – realizados em parceria irrestrita com Chiroli e suas empresas.
As apurações revelaram que ao menos dois desses eventos esportivos foram formalizados por meio de Termos de Fomento firmados entre o Ibrace e a Secretaria Municipal de Esportes, com recursos provenientes de emendas de autoria de Chico 2000. A execução das corridas, contudo, foi repassada à empresa Sem Limite Esporte e Eventos Ltda, conhecida como Chiroli Esportes, de propriedade do empresário Chiroli.
Conversas vasculhadas pela polícia mostram que, entre fevereiro e abril de 2025, Chico 2000 e João Chiroli trataram diretamente da organização da 36ª Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá e da 6ª Corrida do Legislativo Cuiabano.
Em uma das mensagens, o empresário solicitou ao vereador que agilizasse o trâmite de processos protocolados pelo Ibrace na Prefeitura de Cuiabá. A investigação também aponta que Chico 2000, na condição de presidente da Câmara Municipal, foi responsável pela emissão de atestado de capacidade técnica em favor do instituto, apesar da proximidade com seus dirigentes e das dúvidas quanto ao local de funcionamento da entidade.
Outro aspecto destacado é o objeto social do Ibrace. Fundado em julho de 2021, o instituto possui um estatuto com finalidade ampla, voltada genericamente ao bem-estar social, sem foco específico na organização de eventos esportivos. Para a Polícia Civil, a extensa lista de objetivos dificulta a identificação de uma atuação institucional clara e compatível com os recursos recebidos, o que reforça a suspeita de que fora cooptado ou constituído para o esquema.
As investigações também apontam vínculo estreito e recorrente entre o Ibrace e as empresas ligadas a João Chiroli, incluindo a Chiroli Esportes e a Chiroli Uniformes, esta última registrada em nome de sua esposa, Magali Gauna Felismino Chiroli. Relatórios técnicos indicam confusão proposital entre as duas empresas, inclusive quanto aos endereços informados em cadastros oficiais e materiais de divulgação de eventos esportivos.
Entre 2023 e 2025, foram identificadas 20 emendas parlamentares destinadas ao Ibrace. Do total, 12 foram efetivamente pagas e, em todas elas, a Polícia Civil encontrou indícios de vinculação entre o instituto e as empresas de Chiroli ou o próprio empresário. As diligências apontam que a execução e a apresentação pública dos eventos ocorreram de forma integrada entre o Ibrace, a Chiroli Esportes e a Chiroli Uniformes.
A Operação “Gorjeta”, deflagrada por ordem do Juízo do Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias de Cuiabá, investiga crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro. No âmbito da ofensiva, foram cumpridos mandados de busca e apreensão, medidas de acesso a dados e bloqueio de bens de investigados, incluindo o vereador Chico 2000, empresários, dirigentes do instituto e servidores públicos. Chico foi afastado cautelarmente do cargo por 60 dias.