A Justiça determinou que a Controladoria-Geral do Município (CGM) realize uma auditoria completa em todos os Termos de Fomento firmados entre o Município de Cuiabá e o Instituto Brasil Central (Ibrace) desde 2022, no prazo máximo de 120 dias. A medida integra as cautelares inominadas deferidas no âmbito da Operação Gorjeta, que apura suspeitas de desvio de recursos públicos envolvendo emendas parlamentares, contratos administrativos e entidades do terceiro setor, e que culminou no afastamento judicial do vereador Chico 2000 (sem partido).
Leia também
Vereadores destinaram quase R$ 9,5 mi a instituto investigado; Chico 2000 enviou mais de R$ 3 mi para corridas de rua
A decisão foi proferida pelo juiz Cássio Leite de Barros Netto, do Núcleo de Justiça 4.0. Conforme o despacho, a CGM deverá auditar todas as etapas dos termos de fomento celebrados com o instituto, abrangendo a formação dos contratos, a execução dos serviços e a prestação de contas.
Além do prazo geral de 120 dias para a auditoria integral, o magistrado fixou prazo de urgência de 30 dias para a análise de dois contratos considerados sensíveis pela investigação: o Termo de Fomento nº 01/2025-SMESP, referente à 36ª Corrida do Senhor Bom Jesus, e o Termo de Fomento nº 03/2025-SMESP, relativo à 6ª Corrida do Legislativo.
Ao determinar a auditoria, o juiz apontou indícios consistentes de desvio de finalidade e confusão patrimonial. A decisão registra que, entre 2022 e 2025, ao menos 12 emendas parlamentares resultaram em termos de fomento firmados com o Ibrace, em sua maioria vinculados à Secretaria Municipal de Esportes.
O magistrado também destacou elementos que indicam que o instituto teria sido “cooptado ou criado com o fim precípuo de viabilizar o desvio de verbas públicas”. Segundo a decisão, a auditoria tem como objetivo interromper o fluxo de possíveis desvios, subsidiar a reparação do erário e proteger a supremacia do interesse público, com base no poder geral de cautela do Judiciário.
Nos últimos três anos, vereadores de Cuiabá destinaram quase R$ 9,5 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Brasil Central (IBRACE). O principal responsável pelos repasses foi o vereador Chico 2000, que entre 2023 e 2025 encaminhou R$ 3,65 milhões à entidade, todos voltados à realização de corridas de rua na Capital. Só em 2023, foram R$ 1,05 milhão, sendo R$ 600 mil para a Corrida do Bom Jesus de Cuiabá, R$ 350 mil para a 4ª Corrida do Legislativo e R$ 100 mil para a 1ª Corrida Solidária da Região Sul.
Além de Chico 2000, outros parlamentares também destinaram recursos ao instituto. Em 2023, o vereador Dídimo Vovô (PSB) encaminhou R$ 100 mil para a Corrida Solidária da Região Sul. Emendas atribuídas ao ex-vereador Dr. Luiz Fernando (União) somam R$ 880 mil, embora conste nos registros que o instituto “não entrou em contato ou apresentou proposta” para execução. Também aparecem repasses de Rodrigo Arruda e Sá (PSDB), Kássio Coelho (Podemos), Lilo Pinheiro, Wilson Kero Kero e Cezinha Nascimento (União). Em 2024, parte das emendas passou por alterações de objeto e fracionamento, com recursos inicialmente previstos para um projeto sendo redirecionados para outros eventos e instituições, o que também entrou no radar da investigação.
A medida foi solicitada pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (DECCOR) como parte do conjunto de ações para estancar a triangulação de recursos públicos envolvendo emendas parlamentares, o IBRACE e empresas do grupo Chiroli.