Depois de ter as contas bloqueadas pela Justiça diante de um cliente insatisfeito com seus serviços de móveis planejados, Alex Queiroz Silva se afundou em dívidas por conta do vício em jogos e prostituição. Pressionado por agiotas que ameaçavam sua família, ele percebeu uma oportunidade tentadora: durante um churrasco, o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, agente da Rotam, comentou sobre uma proposta de R$ 200 mil para matar um advogado. Tratava-se de Renato Nery, jurista que foi assassinado a tiros por Alex enquanto chegava no seu escritório, em julho de 2024, na capital.
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À Justiça, durante audiência, Alex confessou a execução de Nery e disse que o fez sob intermédio de Heron, que, por sua vez, também admitiu o crime. Os fatos foram revelados nas alegações finais oferecidas pelo Ministério Público nesta quarta-feira (23) à 14ª Vara Criminal de Cuiabá, onde tramita a ação penal contra a dupla. Para o promotor Rinaldo Segundo, que assinou a peça, Alex e Heron devem ser submetidos a julgamento perante o Tribunal do Júri.
Ao ser interrogado em juízo, Alex confessou que assassinou Nery. Pressionado por agiotas que chegaram a ameaçar sua família e mencionaram saber onde seu filho estudava, o Alex decidiu aceitar a empreitada criminosa como forma de resolver seus problemas financeiros – mesmo sem ter recebido a oferta diretamente, pelo menos segundo depôs Heron à Justiça no sentido de desacreditar que Alex puxaria o gatilho.
A proposta de R$ 200 mil foi tentadora e, então, Alex narrou que alugou uma arma de fogo defeituosa por R$ 1.500,00 de um indivíduo conhecido apenas pelo apelido "Rampa", sendo advertido de que a arma não disparava tiros individuais, mas sim rajadas. No dia anterior ao crime, visitou o escritório da vítima para reconhecimento, mas não teve coragem de executar o ato naquele momento. Confirmou que, após o crime, devolveu a arma no dia seguinte, não restando munição no equipamento, e que pagaria o valor do aluguel posteriormente, conforme acordo estabelecido.
No dia seguinte, retornou ao escritório de Nery, na Avenida Fernando Corrêa e, ao avistar o advogado descendo de um veículo branco, efetuou os disparos a partir de sua motocicleta.
Depois da execução, Alex providenciou formas de se livrar dos rastros deixados: queimou as roupas usadas, o capacete, escondeu a moto e destruiu o próprio celular em sua casa. Depois, ligou para Heron e confirmou o assassinato, momento em que o PM demonstrou preocupação e reprovação pelo ato praticado. Heron não acreditava que Alex cometeria o crime. A arma foi devolvida ao batalhão da Rotam através de Icaro Nathan Santos Ferreira, também policial, e posteriormente "encontrada" em um “confronto” policial.
Alex morava de favor da chácara de Heron, em Várzea Grande, local usado como QG da empreitada, onde as provas foram queimadas.
Quanto aos pagamentos, dos R$ 200 mil prometidos, foram pagos apenas cerca de R$ 100-120 mil em parcelas. Heron ficou apenas com R$ 10 mil para suas despesas, repassando o restante, parcelado, a Alex.
Os pagamentos ocorreram através do militar Icaro Nathan Santos Ferreira (que serviu como intermediário na primeira entrega) e posteriormente em encontros diretos com Jackson Pereira Barbosa, militar que, por sua vez, intermediou a encomenda pela cabeça de Nery junto ao casal Cesar Sechi e Julinere Goulart, que confessaram serem os mandantes.
Durante os interrogatórios, Alex detalhou o planejamento e execução do crime, revelando que Heron lhe havia informado que os mandantes seriam "dois fazendeiros", descobrindo posteriormente tratar-se de um casal. O interrogado também confirmou que recebia os pagamentos exclusivamente de Heron.
Diante das confissões, perícias e depoimentos convergentes, o Ministério Público pede que os dois réus sejam pronunciados e julgados pelo Tribunal do Júri, sustentando que as provas mostram Alex como executor e Heron como articulador do homicídio qualificado. O processo agora segue para análise judicial.