Três grupos ligados ao agronegócio em Mato Grosso tiveram processos de recuperação judicial deferidos em janeiro de 2026, expondo uma combinação de fatores que vai além da gestão interna: morte de liderança familiar, impactos da Guerra da Ucrânia, eventos climáticos extremos e queda nos preços das commodities. As decisões constam no Diário Oficial do Estado, edição de 27 de janeiro de 2026.
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Somados, os processos já superam R$ 22 milhões em dívidas formalmente declaradas. Apenas no Grupo LF Danese, os créditos com valores individualizados ultrapassam R$ 8,8 milhões, sem que o valor total da causa tenha sido consolidado no despacho judicial, o que indica que o impacto financeiro conjunto tende a ser ainda maior.
Juntos, os pedidos envolvem dezenas de milhões em passivos, com atuação nas áreas de agricultura, pecuária, café, sementes e transporte de cargas, em regiões como Cuiabá, Sinop, Colniza, Pontes e Lacerda e Comodoro.
Grupo Fuhr: seca, queda da soja e blindagem de terras e grãos
O Grupo Fuhr concentra o maior passivo entre os três. O valor da causa foi fixado em R$ 17,56 milhões. O grupo é formado pelas empresas Sidnei Fuhr Ltda., Sandro Fuhr Ltda. e Antonia Adriana Alves Fuhr Ltda., além dos sócios pessoas físicas.
No pedido, os produtores atribuíram a crise a uma sequência de eventos climáticos adversos — seca histórica em 2019/2020, veranico em 2020/2021, estiagem em 2023/2024 e chuvas intensas na colheita de 2024/2025 — somados à queda abrupta do preço da soja e à alta dos custos de insumos e combustíveis.
Entre os principais credores estão Banco Santander, Fiagril (R$ 4 milhões), Caixa Econômica Federal, Sicredi Biomas e fornecedores como Agrícola do Vale, que sozinho cobra R$ 4,62 milhões.
O processamento foi deferido pela 1ª Vara Cível de Cuiabá, que reconheceu a essencialidade dos bens de capital, proibindo apreensão de maquinários, grãos de soja e milho e garantindo a manutenção dos contratos de arrendamento das fazendas Papagaio, Matão, Alvorada e do Sítio Boa Esperança, em Pontes e Lacerda, durante o período de blindagem.
A administração judicial ficou a cargo da Ravenna Administração Judicial, sob responsabilidade de André Pellizzoni Veras Gadelha.
Grupo Dalto: El Niño, incêndios e morte do patriarca agravam crise
No norte do Estado, o Grupo Dalto, com atuação em café, pecuária e sementes, teve recuperação judicial deferida pela 4ª Vara Cível de Sinop, em decisão de 19 de janeiro de 2026. O valor da causa é de R$ 4,5 milhões.
O grupo é composto por Ozédina Pereira de Oliveira Dalto, Dalto Indústria e Comércio de Café Ltda. e João Fernandes Oliveira Dalto, com atividades concentradas na região de Colniza.
Nos autos, os empresários descrevem uma “tempestade perfeita”, citando os efeitos da pandemia, El Niño, seca severa, incêndios florestais, elevação das taxas de juros, queda da arroba do boi e, de forma central, o falecimento do patriarca da família em 2024.
O processo aponta que a morte do líder familiar ocorreu em meio ao agravamento da crise climática e econômica, fragilizando a gestão em um momento crítico. O principal credor com garantia real é o Banco do Brasil, com R$ 1,06 milhão. Entre os quirografários estão Sicredi Univales, Sicoob Credip, Itaú Unibanco, além de fornecedores locais.
A Justiça reconheceu a existência de grupo econômico familiar e autorizou a consolidação processual, com tramitação conjunta das ações. A administradora judicial nomeada foi a CM Administração Judicial e Perícias Ltda.
Grupo LF Danese: Guerra da Ucrânia eleva custos e desequilibra pecuária e transporte
Já o Grupo LF Danese, sediado em Comodoro, atua de forma integrada na pecuária de corte e no transporte rodoviário de cargas, atendendo frigoríficos como a JBS. O processo foi deferido pela 1ª Vara Cível de Cuiabá (Núcleo de Falência).
Embora o valor global da causa não tenha sido fechado em um único número, os créditos listados somam milhões de reais, com destaque para dívidas garantidas junto a Sicredi Biomas, Sicoob Credisul, Banco Volvo, Banco Randon e Bradesco.
No pedido, os sócios Levissilvio Toldo Marques de Souza e Leda Figueiredo Danese Souza apontam a Guerra da Ucrânia como fator macroeconômico decisivo para o colapso financeiro. Segundo o grupo, o conflito impulsionou o aumento dos custos de produção, especialmente combustíveis e insumos ligados ao transporte.
O impacto ocorreu simultaneamente à desvalorização da arroba do boi em 2022 e 2023, comprimindo margens e forçando a tomada de crédito para capital de giro e investimentos em infraestrutura. O resultado foi um endividamento considerado insustentável.
O juiz reconheceu a interdependência entre a atividade rural e o transporte, autorizando a consolidação substancial, que permite tratar ativos e passivos como um único balanço. A administradora judicial nomeada foi Fabiana Nascimento de Souza.