A disputa envolvendo os cuidados com gatos comunitários no Condomínio Morada do Parque, em Cuiabá, ganhou novos elementos após mais uma denúncia feita pelo morador Muamar Khalil Okde, responsável por ações judiciais relacionadas ao caso. Okde, proprietário de unidade na torre I, apresentou relato expondo episódios que, segundo ele, evidenciam hostilidades contra protetores e falhas administrativas na gestão do condomínio. Na peça, Okde ainda acusa a suplente de deputada estadual Sheila Klener PSDB) de atuar contra a proteção dos animais e entrar no processo como parte da acusção.
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Okde afirma ter atuado voluntariamente no cuidado dos felinos entre 2018 e 2024, período no qual também plantou mais de 400 árvores nas áreas internas e na UPA do bairro Morada do Ouro. Ele relata ter castrado, tratado e encaminhado para adoção gatos que circulavam pelo condomínio — quatro deles adotados por ele próprio — e sustenta que suas cobranças por cumprimento de decisões judiciais o tornaram alvo de conflitos.
Segundo sua manifestação, a síndica Maria Simone Turcatto teria nomeado um funcionário terceirizado como “tutor” dos animais em abril de 2024 apenas para “fingir cumprimento” da ordem judicial que determinou o cadastramento de responsável pelos felinos. Ele afirma que, orientados por advogadas, moradores evitaram assumir a função por receio de eventuais responsabilizações civis, citando mensagens divulgadas pela própria síndica em grupo interno do condomínio.
Okde também relata episódios que, segundo ele, envolveriam omissão da administração. Entre eles, a recusa da síndica em fornecer imagens de câmeras de segurança relacionadas ao aparecimento de uma “bola de carne suspeita” em comedouros em julho de 2024, um ano após o envenenamento do gato Mimiko.
O morador relata hostilidades atribuídas a outros condôminos, mencionando desaparecimento de animais, atropelamento não esclarecido e envenenamento de gatos castrados. Também afirma que, mesmo após ordens judiciais que determinaram a cessação de ataques em grupos internos de mensagens, episódios de constrangimento continuaram ocorrendo.
Okde sustenta que a alimentação fornecida pelo condomínio é insuficiente e de baixa qualidade e que a nomeação do tutor não garantiu o cuidado aos felinos. Segundo ele, gatos ficaram desnutridos e uma gata adulta desapareceu após o fim de pontos de alimentação, além do caso do animal identificado como “Breu”, que perdeu um olho e sofreu fratura na mandíbula.
Boletim de ocorrência
A manifestação do morador contrasta com relatos prestados pela síndica à Polícia Civil em agosto de 2024. No boletim registrado na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, Maria Simone Turcatto afirmou que o morador causava perturbações no condomínio, alimentava gatos em diversos pontos e atraía outros animais, como pombos. Também disse que enfrentava dificuldades para conter reclamações de moradores e que havia sido alvo de calúnia após negar imagens de câmeras de segurança. A síndica declarou ainda temer por sua integridade física e pediu abertura de investigação.
Contexto da disputa
A disputa ocorre um ano após sentença do Juizado Especial Cível, proferida em novembro de 2024, que determinou ao condomínio o cadastramento de ao menos um tutor para os gatos comunitários. Embora a Lei Estadual nº 12.391/2024 atribua aos tutores voluntários cuidados básicos de higiene, alimentação e saúde, o juiz estabeleceu que, na ausência de voluntários, o condomínio deveria assumir o cadastro.
Em novembro de 2025, Okde alegou que a sentença não vem sendo cumprida e pediu tutela de urgência. Sustentou que animais estariam desnutridos, sem água limpa e com higiene precária, citando o caso do gato “Breu”, encontrado com grave ferimento. O pedido solicita multa diária, laudo veterinário, relatórios periódicos e possibilidade de intervenção de entidade protetora. O requerimento está em análise.
Dias depois, em 24 de novembro, o condomínio ajuizou queixa-crime contra moradores que, segundo a administração, estariam divulgando informações falsas sobre maus-tratos. A gestão afirma ter assumido os cuidados após ausência de voluntários e contesta que haja descumprimento da decisão judicial. A síndica sustenta que os animais recebem alimentação, vacinação e abrigo e que o caso de “Breu” se refere a ferimento compatível com briga ou ataque de cachorro de rua, conforme laudo veterinário. A administração afirma que tem sido alvo de ataques e que divulgará judicialmente responsabilidades por publicações consideradas difamatórias.
A disputa segue em tramitação no Judiciário, envolvendo denúncias cruzadas, pedidos de tutela, registros policiais e relatos divergentes sobre a execução da sentença e o manejo dos gatos comunitários no condomínio.